Poluição Orgânica das Águas

Será que nossa casa tem algo haver com os peixes que morrem no rio? Infelizmente a resposta pode ser sim em muitos municípios do Brasil. Isto porque a poluição orgânica das águas tem como uma das principais fontes os esgotos não tratados que saem das nossas casas.

Segundo o IBGE apenas 52,2% dos municípios brasileiros tem algum tipo de serviço de coleta de esgotos instalados. Mas como muitos têm os serviços somente parcialmente implantados apenas 33,5% dos lares brasileiros têm este serviço disponível. E mesmo nestes o quadro é preocupante, pois apenas 20,2% do é coletado é tratado antes de chegar aos rios. Os outros 80% só afastam o dejeto das casas e o levam para os mananciais de água superficiais ou subterrâneos ainda com forte poder poluidor.

Na água o esgoto, como todas as fontes orgânicas, acaba virando adubo para os microrganismos nela existente. O resultado é uma explosão populacional dos mesmos que acaba por consumir a maior parte do oxigênio livre disponível. O resultado é a morte dos peixes e outros animais aquáticos que dele necessitam.

Em condições naturais também há entrada de material orgânico nas águas. Mas o ritmo é muito mais lento e os mecanismos naturais de digestão dão conta evitando estes picos populacionais. A degradação natural da matéria orgânica libera nutrientes para as algas. Estas, ao crescerem, liberam oxigênio via fotossíntese equilibrando o que é consumido na degradação pelos microrganismos.

Por isto só podemos falar em poluição orgânica das águas quando o volume de matéria orgânica for superior a capacidade de depuração. Esta varia em função do volume de água (rios mais volumosos diluem a matéria orgânica), temperatura da água (mais quente ativa o metabolismo dos microrganismos) e oxigenação (rios mais frios e rios mais encachoeirados têm mais oxigênio)

Além de matar peixes a matéria orgânica pode disseminar doenças, pois muitos microrganismos patógenos vêem junto para a água.

Além do esgoto doméstico há outras fontes importantes de poluição orgânica das águas. Uma pode ser o lixo mal disposto que é arrastado pelas chuvas fortes. Os sedimentos de solos erodidos também têm matéria orgânica. Os dejetos animais não tratados também podem parar nas águas e têm potencial poluidor maior que esgoto humano. A indústria do álcool combustível pode gerar muita poluição. No campo das indústrias as maiores fontes estão na indústria de alimentos, mas também em curtumes e fabricas que manipula produtos animais.

O petróleo também é fonte orgânica de poluição, mas, por sua natureza seu impacto é diferente. Ele adere em animais e forma filme sobre a água impedindo a oxigenação.

Por todos estes motivos a poluição orgânica das águas é um dos grandes desafios na sua proteção. Os órgãos ambientais já tiveram muito sucesso no controle da poluição industrial e têm avançado na poluição de origem agrícola.

Mas no plano do saneamento ainda temos muito por fazer. Tanto no lixo como no de esgoto temos que investir muito em sistemas de tratamento. A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária calcula serem necessários cem bilhões de reais para tratar todos os esgotos do país. Muito tem sido feito de 2002 para cá pelo governo federal através do PAC. Mas a experiência mostra que estas obras só se efetivam no combate à poluição orgânica das águas quando a população liga suas casas nas redes coletoras. Temos muitos exemplos de gente que mesmo tendo rede na porta não faz sua parte e joga os dejetos no meio ambiente.

Por isto a juventude tem que se mobilizar. É preciso cobrar dos governos as obras de controle do lixo e esgoto. Das indústrias e criadores temos que controlar a poluição e denunciar abusos. E de nossas famílias temos que cobrar participação ativa no combate à poluição orgânica das águas de cada casa.

Só assim teremos águas mais limpas, vida aquática em abundância e mais saúde para todo mundo.

 

Arno Kayser

Agrônomo, ecologista e escritor

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