A MAGIA E O MISTÉRIO NATURAL

 

Muita gente pode se perguntar por que alguns ecossistemas têm mais apelo que outros quando se trata de lutar por sua preservação. De um modo geral, por exemplo, as matas são mais consideradas que os desertos ou os glaciares como dignas de proteção aos olhos da maioria. Mesmo entre os preservacionistas.

Está tendência também governa a escolha das áreas mais dignas de serem protegidas no meio cientifico. Um exemplo são os chamados “Hots Spots”. Ambientes ao redor do Globo onde ocorrem os maiores índices de biodiversidade do planeta. Estes lideram a listas das áreas mais importantes para a proteção da natureza do ponto de vistas dos especialistas.

Mesmo entre estes do topo da lista há alguns ambientes que parecem ter mais apelo ainda que outros. Um exemplo desta diferença são as florestas da Amazônia e da Mata Atlântica. Ambas extremamente ricas do ponto de vista da biodiversidade. Mas aos olhos do mundo parece que a Amazônia é muito mais digna de ser preservada do que a Mata Atlântica. O que representa até certa incoerência, pois a segunda está muito mais ameaçada do que a primeira. O lógico seria que a Mata Atlântica teria prioridade numa escala de prioridades, pois é a mais devastada.

Mas parece que alguns lugares mexem mais com o imaginário humano. Alguns territórios selvagens parece terem apelo mágico maior do que outros igualmente importantes. Parece-me que eles simbolizam um mistério. Uma espécie de esperança. Talvez até um refúgio para manter a lucidez e projetar sonhos.

O fato de serem ainda pouco conhecidos pela ciência e de terem sido pouco integrados ao processo civilizatório pelas dificuldades de ocupação que sua condição natural impõe lhes confere a possibilidade de projetarmos muitas expectativas neles.

Entre estás certo sentido mágico de paraíso perdido. Um lugar de sonho de onde pode vir à cura de todos os males. Uma fonte de renovação física de toda a Terra e, até mesmo, da espiritualidade humana.

Processo que parece crescer quando mais avança a sociedade contemporânea em sua marcha materialista civilizatória. Quanto mais cresce o sofrimento de milhões de seres e mais aumenta a degradação da natureza. Quanto mais aumenta o poder da técnica e a força dos grandes capitalistas e das organizações transnacionais.

Estes territórios indômitos como a Amazônia, O Alasca, A Antártida, a Grande Barreira de Corais, as Savanas, Grande Cânion e o Himalaia se apresentam aos olhos do desesperançados com os rumos deste megaprocesso planetário de degradação como a esperança de redenção. Algo extremamente cristão, aliás. E como tal há acordo de que precisam ser preservados a todo o custo como prova viva do imenso e transcendente poder da natureza.

Outros ambientes naturais importantes parecem não ter mais a mesma força. Alguns como os desertos e glaciares, por serem pobres em diversidade natural. Outros como a Mata Atlântica ou as florestas da Europa, por terem sido de tal modo devastado que não permitem mais esta condição de neles se projetar uma mística mágica.

Curioso que alguns destes ambientes já tiveram forte apelo mágico na cultura humana.

Os desertos da Palestina e do Egito, no passado, foram considerados lugares de recolhimento próprios para o desenvolvimento espiritual. Ali se podia, na solidão, entender o mistério da vida. Jesus e Moises tiveram no deserto a etapa final de sua iniciação antes de assumirem papéis de lideres de seus povos.

A Mata Atlântica, nos séculos XVI e XVII, inspiraram um rico debate sobre a verdadeira natureza da alma humana. O mito do “bom selvagem” dos iluministas deve muito aos relatos dos viajantes sobre a natureza da costa brasileira e sua população nativa.

As florestas da Europa eram templos dos druidas celtas onde a deusa Brígida era reverenciada. O Monte Olímpo era o lar dos deuses gregos. Os glaciares e as altas montanhas também eram lugares sagrados para os Incas. Nelas eram realizadas as mais fortes cerimônias de oferta as suas divindades incluindo o sacrifício de seres humanos.

Um fascínio que estes ambientes perderam, em parte ou de todo, nos dias atuais. Fascínio que se transferiu para lugares distantes e menos civilizados.

A meu ver, no entanto, em todos os espaços do planeta, mesmo os mais degradados ou modestos, se pode perceber a magia e o mistério que emana do processo vital. Mesmo que os compreendamos racionalmente todos os processos que animam a vida de um ambiente ainda assim, com algum treino e contemplação verdadeira se pode ver que o mistério da vida pulsa em todos os cantos da terra.

Nalguns de forma mais rica e complexa. Noutros de forma mais simples. Mas todos igualmente belos e engenhosos para se desenvolver a partir dos limites naturais impostos pelos ciclos geológicos e astronômicos.

Por isto creio que todos os lugares devem ser alvo de um processo de ocupação pela civilização humana que permita que a vida que ali se desenvolveu siga existindo. Até porque num acordo global se priorizar a preservação de alguns mais notáveis isto pode justificar a destruição dos menos valorizados. O que seria lamentável. Algo semelhante a idéia fascista de se preservar os considerados mais puros e condenar a morte os diferentes e fracos de toda ordem.

Isto porque todos têm o potencial de acender no espírito humano o encantamento capaz de motivar-nos permanentemente a viver dignamente e trabalhar para construir um mundo onde todos possam seguir existindo.

É uma questão de estudar um pouco mais e também de educar nosso intelecto e sentidos para percebermos esta magia que se expressa o tempo todo em cada canto do planeta. E fazer deste encantamento motivação para se viver o dia a dia com coragem e consciência de que fazemos, todos, parte deste espetáculo fantástico que é a vida na Terra.

Arno Kayser

Agrônomo Ecologista e Escritor

A partir de uma provocação do Prof José Paduá

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