A natureza brasileira em crônica

 

 

A natureza brasileira foi fonte de inspiração para diversos autores ao longo da nossa história! Já na chegada dos portugueses ela foi matéria-prima do primeiro documento sobre o país. A carta de Pero Vaz de Caminha registrou as maravilhas da nova terra, gerando uma expectativa de obtenção de grandes riquezas na sua exploração.

Na esteira deste primeiro documento, há vários relatos, nos séculos 16 e 17, de gente que por aqui andou falando do esplendor da floresta e da civilização indígena. Estes relatos – em alguns casos, um tanto exagerados – curiosamente alimentaram o debate intelectual da época e foram usados pelos filósofos iluministas para defender a ideia de que a natureza humana era boa e que era a sociedade que a estragava. O mito do bom selvagem era uma contraposição à ideia medieval da fraqueza da carne como fonte natural de pecado humano; debate que alavancou em muito o processo revolucionário na França, que culminou na Revolução Francesa no século 18. Também foi um dos motores que muito motivaram o projeto das missões jesuíticas de construir no novo mundo o Reino de Deus na Terra.

Enquanto isso, no Brasil, o governo geral do Império Português se consolidou com o ciclo do ouro, depois do fracasso das Capitanias Hereditárias, trazendo para o país uma elite intelectual formada por padres e servidores da corte. Muitos destes começaram um amplo debate sobre a importância de proteger os recursos naturais brasileiros da ação de muitas práticas predatórias desencadeadas pelos colonizadores, como o desflorestamento e as queimadas em larga escala. Mas o objetivo destes autores não era a proteção da natureza per si, mas sim construir uma política de uso do solo, visando aos interesses da expansão da Coroa na América e, posteriormente, após a independência, os interesses do Império Brasileiro.

Muitos destes textos, escritos como cartas de recomendações ao rei, foram publicados em revistas e livros. José Augusto Pádua, em seu livro Um sopro de destruição, registra este debate que ocorreu em vários pontos do Brasil. O seu maior expoente foi José Bonifácio. O curioso é que a proteção, em especial da floresta, era vista como uma estratégia para a manutenção do poder.

A base do Império Português era a navegação, por isso tantos autores propuseram que as árvores cuja madeira fosse útil para construir ou recuperar barcos fossem consideradas domínio da Coroa. Desse movimento vieram as Disposições Filipinas, que definiram quais seriam essas espécies, que passaram a ser conhecidas como madeiras de lei. Os comuns só podiam usá-las com autorização real.

Estes mesmos autores propuseram que faixas de floresta fossem preservadas ao longo dos rios, mas não pelos motivos que geraram as áreas de preservação permanente modernas. Queriam garantir o material que a marinha precisava para a navegação, com fácil acesso junto às margens, em caso de necessidade.

Outro grande debate foi o papel da floresta no abastecimento de água das cidades, em particular o Rio de Janeiro. Debate que resultou na recuperação da Floresta da Tijuca, devastada pela agricultura no tempo do Império. Foi o primeiro trabalho de recuperação ambiental em larga escala realizado no país.

A Coroa Portuguesa apoiava muito esse tema, tanto que um dos primeiros atos na chegada da família imperial, em 1808, foi a criação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com a reunião de plantas de todos os cantos do Império – uma demonstração de poder da família real.

O Império também apoiou a vinda de outro tipo de cronista da natureza brasileira: os viajantes naturalistas do século 19. Naquele momento, as ciências naturais passavam por um grande processo mundial de consolidação como disciplina científica, liderada por luminares como Darwin e Lineu, que buscavam o mesmo rigor de método que a física já decretara um século antes. A ideia era libertar esse conhecimento das mãos dos místicos, alquimistas, religiosos e xamãs, e descrevê-lo à luz do método científico. Vários cientistas e artistas percorreram o país neste esforço. O próprio Darwin por aqui passou. Outros destaques foram Martius, Langesdorf, Saint-Hilaire, Spix, Humbolt e Lidmann. Vários destes relatos e o produto destas pesquisas até hoje são fundamentais ao conhecimento da nossa paisagem natural.

Já no século 20 esse impulso naturalista começou a fazer eco na intelectualidade brasileira. Reunida no Rio de Janeiro, surge a Sociedade dos Amigos das Árvores, grupo que começou um debate mais contemporâneo. Tal entidade expressava, por um lado, a natureza como base de um ufanismo pela grandeza do país, mas também uma preocupação com a defesa deste patrimônio, influência do conservacionismo já presente em outras plagas.

Esse esforço levou à criação do Dia da Árvore, primeira data oficial destinada à reflexão sobre a importância da natureza de caráter massivo. Também lançou as bases, em debates científicos de alto nível, dos fundamentos do Código Florestal, do Código das Águas e do Código de Caça, nos anos 1930. Foi a primeira legislação brasileira que procurou, de forma sistemática, promover a defesa e o cuidado com a natureza já ameaçada nesta época. Para defendê-la, surgiu o primeiro parque nacional no Itatiaia, seguido pelo parque da Foz do Iguaçu.

Outra luta deste momento foi a política de proteção aos indígenas. A defesa do índio, a partir dos anos 1920, também contribuiu com o debate da temática ambiental. O trabalho começado por Rondon e seguindo pelos irmãos Villas-Bôas e Darcy Ribeiro veio por outra vertente, ao defender como essencial, para proteger o indígena, a integralidade de seus territórios de reprodução da sua cultura integrada à vida em harmonia com a natureza. Foi um resgate moderno da ideia da pureza de caráter dos índios que mobilizou as missões jesuíticas, mas sem o objetivo de converter os índios em cristãos. Muitas das terras indígenas cumprem papel importante na proteção natural, especialmente nas regiões em que estes povos ficaram mais preservados da absorção pela cultura branca.

Na esteira desse debate, surgiu no sul do país a figura luminar de Balduíno Rambo. Autor do clássico Fisionomia do Rio Grande do Sul, formou uma geração de naturalistas e lançou as primeiras manifestações em defesa da natureza ameaçada das matas do sul. O que levou à criação do Parque Nacional dos Aparados da Serra e o Parque Estadual do Turvo. Seus esforços também resultaram na criação da Fundação Zoobotânica do RS.

Contemporâneo de Rambo, Henrique Roessler iniciou os trabalhos de delegado de caça e pesca oficial nos anos 1930. Mais tarde, chocado com o que via, começou a estratégia de escrever artigos de denúncia e conscientização no Correio do Povo, maior jornal do sul do Brasil à época. Foram mais de 300 artigos que tiveram grande repercussão e lançaram base para a luta ambiental contemporânea, com o uso da mídia como ferramenta de denúncia e também como educação ambiental.

Nos anos 1970, esse trabalho teve novo impulso na figura de José Lutzenberger, que também escreveu muito material sobre a defesa do meio ambiente. Seu manifesto Fim do Futuro foi lançado em jornal e distribuído em todo o país, fundamentando toda a ideologia ecologista brasileira. Outros trabalhos seus foram reunidos nos livros Do jardim ao poder e Crítica ecológica do pensamento econômico – trabalhos que contribuíram na luta contra os agrotóxicos e a poluição, e pela criação de unidades de conservação e do sistema de proteção ambiental do país.

Essa linha combativa inspirou vários militantes pelo país afora, como os redatores da revista Pensamento Ecológico, em São Paulo, e Tereza Urban, no Paraná. No Rio Grande do Sul, surgiram, nos anos 1980, autores como Luis Guerra, Carlos Aveline e Arno Kayser; embora com uma repercussão mais local, ajudaram a articular um movimento ecológico em vários cantos do país e lançaram um novo ciclo de lutas por rios e matas, e contra a poluição.

O capítulo do meio ambiente da Constituição é um fruto deste movimento de raiz junto com o Sistema Nacional de Recursos Hídricos e a luta pela agricultura orgânica, contra a transgenia, a proteção da Mata Atlântica e outras frentes. A Eco-92 foi uma culminância desse processo, para o qual esse movimento muito contribuiu. Também ajudou na condução de ações de educação ambiental de forma sistemática nas redes de ensino.

Essa explosão também se refletiu nos meios de comunicação, com o surgimento dos autodenominados ecojornalistas. Atuando na grande mídia, nomes como Juarez Tosi, Roberto Villar, André Trigueiro e Washington Novaes trouxeram o tema para dentro das redações como uma pauta sempre presente.

Numa outra vertente da produção escrita, alguns teólogos também começaram a escrever sobre o assunto, com destaque para Marcelo Barros e Leonardo Boff. A sacralização da exuberância natural se soma à visão científica de outros autores.

Como no passado, todo esse espaço na mídia e literatura também gerou fortes reações de setores opositores às teses ecologistas. No momento, há uma disputa ideológica pela hegemonia do tema e suas teses entre diferentes interlocutores da sociedade. Mas é digno de nota que a crônica ambiental é parte importante da produção cultural e intelectual do país.

A afirmação da defesa da natureza na agenda de debates e a materialização de teses e práticas ecologistas em políticas e ações oficiais devem muito à atuação dos cronistas ambientais. O debate escrito contribuiu muito para fazer o tema entrar na agenda nacional e foi um dos motores do grande processo cultural que a temática ambiental introduziu na vida dos brasileiros. Muito das conquistas na sua proteção se deve a este trabalho dos cronistas da natureza brasileira. Gente que soube compreendê-la e amá-la em sua magnitude e exuberância e fizeram milhões de pessoas tomar consciência de sua importância no contexto nacional e mundial.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

 

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