A natureza é justa?

 

 

Será que a natureza é justa? Um bom debate!

Há muito teóricos da área social tentam encontrar no comportamento de animais e plantas uma justificativa para explicar (ou naturalizar) comportamentos da humanidade.

Nesta busca são invocados naturalistas famosos procurando transcrever seus postulados para o universo das ciências humanas e colocando como “naturais” certos comportamentos das pessoas. Especialmente comportamentos que alicerçam modelos de sociedade da contemporaneidade.

A meu ver o ser humano, a partir do momento em que passou a desenvolver comportamentos culturais nas suas relações seguiu rota própria diferente daquela que a evolução biológica traçou até o surgimento da nossa espécie. Rotas que as demais espécies vêm seguindo mesmo depois do advento da humanidade. Assim sendo penso que teorias que se aplicam a evolução dos animais e plantas quando trazidas para as ciências humanas em geral são distorcidas à luz das teorias que os cientistas sociais querem comprovar. Distorções que são projeções de um desejo de construir teses sobre o comportamento humano nas idéias que buscam explicar a evolução da vida não humana.

Talvez o teórico mais distorcido seja Darwin. Uma leitura atenta de “A Origem das Espécies” deixa claro que ele nunca disse que na selva vence sempre o mais forte. Sua teoria diz que quem sobrevive é o mais apto. Aquele que melhor se adapta aos eventos dramáticos da evolução do planeta.

Por vezes o mais apto é uma criatura fraca fisicamente, mas dotada de características fisiológicas que lhe dão vantagens na busca pela sobrevivência. Um exemplo extremo disto são alguns insetos que sobrevivem sobre os glaciares. Seu corpo tem altos teores de glicol. Uma substância que praticamente não congela. Graças a isto conseguem sobreviver longe de predadores se alimentando de partículas orgânicas que vento joga sobre o gelo. Eles não são os mais fortes da selva. Um pisão e estão mortos. Mas são os mais aptos àquele ambiente.

Mas a despeito disto muitos dizem que Darwin defendia que são os mais fortes que vencem. Com isto buscando provar que a violência e a competição que caracterizam a sociedade humana seria uma coisa natural. Uma lei imutável da natureza que a humanidade inevitavelmente deve seguir.

Claro que existem relações violentas e competição entre todos os seres vivos. Mas não da forma como se manifesta nas relações humanas. Na natureza elas só visam à sobrevivência. Não há imposição de um ser sobre outro. Mesmo o predador mais mortal de um ambiente só é violento para caçar o alimento do dia ou para defender o território ou suas crias. Fora destas circunstâncias o comportamento é tranqüilo e mesmo indiferente em relação às presas e outros seres do pedaço. Fora a violência da caça dificilmente se vê mortes decorrentes de conflitos entre animais. Mesmo em disputas por território ou por parceiros para reprodução o vencedor não mata o perdedor. O derrotado se afasta e segue sua vida.

Num ecossistema em equilíbrio temos o que os ecólogos chamam de clímax. Um estágio dinâmico em que toda matéria e energia é aproveitada da forma mais eficiente possível gerando sistemas em que todas as criaturas capazes de nele sobreviver tenham o suficiente para suprir suas necessidades vitais.

Quando, por algum cataclismo, há alguma alteração nesta condição clímax o que ocorre é uma disputa mais intensa entre as criaturas pela utilização dos recursos naturais que ficam disponíveis num primeiro momento. Algo que os ecólogos chamam de sucessão. Uma situação de em geral evolui para a condição de clímax novamente.

Nesta condição de clímax podemos dizer que a natureza é justa, pois dá a todos segundo suas necessidades permitindo que todos tenham de gozar seu tempo de vida dispondo da cota de energia e matéria de que necessitam para viver em plenitude.

Situação que nem sempre observamos nas sociedades humanas ao longo da história e nos dias atuais. São bem mais comuns situações em que um povo, classe social, país ou outra forma de organização coletiva, se valendo da violência, ou da superioridade numérica ou tecnológica age de forma injusta e toma para seu gozo recursos que outros grupos humanos ficam em falta para ter uma vida digna.

Querer usar a natureza como modelo para justificar estes estados de exploração e violência não é justo nem com as pessoas oprimidas nem com as demais formas de vida (que muitas vezes também são violentadas por obra dos mesmos opressores).

Teóricos que buscam justificar modelos sociais injustos com exemplos tirados da organização e evolução natural deveriam mudar de estratégia. Melhor seria deixar de buscar idealizações de comportamento dos animais para encontrar justificativas naturalizantes de comportamento social humano e começarmos realmente a observar a dinâmica da vida selvagem como ela é de fato. Talvez muitos modelos de comportamento poderiam ser buscados para inspirar teorias de como criar sociedade humanas justas.

Uma genuína contemplação seria capaz de inspirar teorias sociais que levassem a humanidade à construção de sociedades em estágio clímax.

Sociedades em que todos os recursos materiais, intelectuais e institucionais fossem justamente distribuídos e aplicados de forma a criar um mundo justo em que cada forma de expressão humana encontrasse seu espaço e tivesse os meios para se expressar com beleza e dignidade.

 

Arno Kayser

Agrônomo, ecologista e escritor

 

 

 

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