Hábitos ecológicos

 

 

O grande mestre José Lutzenberger gostava descrever a vida na Terra com uma grande sinfonia. Cada espécie ou fenômeno natural era um das partes do processo cujo resultado era a harmonia do Universo.

Mais que ressaltar a beleza de uma grande composição artística está metáfora procura resgatar o papel de cada um dos instrumentos na produção do efeito final. Mesmo uma simples percussão tem seu momento de brilho e importância no processo. O ser humano ocupa papel de destaque como regente de uma composição que vem sendo criada a milhões de anos.

Outra imagem que ele gostava é de descrever a vida como uma grande teia em que cada fio era uma espécie ou gênero. Esta imagem servia para alertar que a humanidade não deveria se iludir com a estabilidade da teia mesmo com o rompimento de um fio. Fenômeno que corresponderia à extinção de uma espécie. Ele alertava que poderia chegar o momento que o rompimento de um único fio poderia acabar com a teia toda.

Há uma conexão entre todos os seres vivos do planeta. Todos os seres estão interligados num grande conjunto de mutuas influências. O gesto de um mexe com toda a cadeia da vida.

Frijof Capra usa a mesma imagem para descrever o fenômeno da vida ao falar de milhares de conexões ocultas entre todos os seres vivos. O mesmo processo ocorre tanto dentro dos indivíduos, onde as reações bioquímicas dos órgãos interagem de tal modo entre si que é praticamente impossível separar um sistema interno do outro, como entre as espécies em si.

Também na vida social observamos esta interdependência entre todos os seres humanos. O veneno que um agricultor lança pode tanto afetar animais próximos da lavoura como consumidores a milhares de quilômetros de distância. Uma sacola plástica ao léu pode entulhar o bueiro e levar a inundação de uma casa pela enxurrada. A decisão de um pequeno grupo de acionistas pode levar uma empresa a deixar de comprar matéria prima noutro lugar ou transferir uma planta produtiva para outro rincão. Fatos que mudam a vida econômica de milhares de pessoas. Optar por ir de ônibus pode contribuir para diminuir o engarrafamento. Um ponto percentual a menos de imposto por estimular uma tecnologia nova no mercado.

Por estas e por outras é que James Lovelock propôs a Teoria de Gaia. Basicamente que a Terra é uma grande ser vivo. Cada espécie um tecido ou órgão. Os ecossistemas equivalem aos sistemas circulatório, digestivo ou neurosensorial.

Neste contexto percebemos que todos têm responsabilidades com a saúde desta criatura que ele chamou de Gaia numa referência a deusa grega da Terra. Nossos hábitos cotidianos são parte do fenômeno vital. Parte das notas da sinfonia do Universo. Fios da teia da vida.

Por isto devemos refletir bem em relação a eles e não fugirmos das responsabilidades quanto aos impactos no planeta.

É fundamental adotarmos hábitos que não agridam a vida e ajudem a promovê-la. E hábito é a palavra, pois precisamos de comportamento internalizado. Quase operando no piloto automático sem que se precise pensar no assunto.

Se não fizermos isto estaremos cooperando para destruição do processo vital. Além de eventualmente nos prejudicarmos podemos afetar a qualidade de vida de pessoas envolvidas na produção das nossas necessidades Também podemos prejudicar seres vivos que recebem os impactos de nossos hábitos em seus ecossistemas.

É um compromisso ético para com todos os seres e também necessidade de preservação da nossa existência. Como exemplo, podemos citar o hábito de consumir alimentos industrializados. Eles, em geral, fazem mal a saúde por terem substâncias prejudiciais ao organismo da gente. Além disto, sua produção pode gerar grandes danos à vida dos que moram perto das fábricas ou das áreas agrícolas onde são produzidos. Seu impacto produtivo também pode poluir o ar e a água, gerar grande poluição ou destruir habitats de outros seres vivos ou modos de vida tradicionais.

Se optarmos por alimentação saudável podemos promover nossa saúde e trazer efeitos positivos na cadeia de relações humanas e de outros seres vivos. Alimentos saudáveis em geral são produzidos com muitos menos impactos ao meio ambiente e costumam produzir efeitos positivos nas comunidades envolvidas na sua produção. Ao optarmos por eles podemos gerar muitos benefícios através de uma gama imensa de conexões ao longo da teia da vida.

Seguindo esta linha de raciocínio, podemos nos perguntar que hábitos são mais urgentes de se mudar para proteger o meio ambiente. A resposta é complexa e dá margem a muitas possibilidades a acalorados debates que beiram o passional.

Em minha opinião, a chave não é tanto o que mudar, mas basicamente buscar a moderação em nossos hábitos. Claro que podemos tomar atitudes bem radicais como parar completamente de consumir algo produzido com grande impacto ambiental. Mas isto é difícil e exige muita força de vontade e, por vezes, gera muita reação contrária que rouba a coragem de fazer.

Agir com moderação pode ser uma saída para uma fase de transição mais tranqüila.  Comer menos carne, gastar menos água, usar menos o carro, poupar energia elétrica. São exemplos de coisas que se pode fazer para começar um processo de uma vida pessoal com menos impacto ao meio ambiente.

Outro foco da busca de hábitos ecológicos é a reflexão quanto à essencialidade dos nossos hábitos. Em outras palavras pensar se o que consumimos é realmente necessário ou desperdício. Tomar um banho morno é um hábito saudável essencial a saúde da pessoa. Diferente de varrer a calçada com mangueira. Ambos usam água, mas é obvio que o segundo é um grande desperdício do líquido enquanto o primeiro é uma necessidade básica.

No dia a dia tomamos várias decisões pequenas que podem gerar impactos variáveis. Por vezes é preciso desacelerar as coisas para pensar no que estamos fazendo. Mastigar devagar ajuda a comer menos. Faz bem à saúde e diminui o desperdício. Se muitos fizerem isto, dá mais tempo para a se Terra reciclar dos impactos ambientais de uma produção agrícola.

Todos os seres evoluíram num ritmo mais lento do que o da vida moderna. Viver com mais calma pode nos ajudar na opção por hábitos saudáveis e bons para o planeta.

Mas não basta só estarmos informados para conseguir praticar hábitos ecológicos. Para realmente embargar nesta a dica é começar a praticar as coisas junto com outras pessoas. Fica mais fácil! Um exemplo é voltar a pé ou de transporte coletivo junto com os amigos da escola. Diminui a poluição e o engarrafamento e é bem mais divertido que fazer sozinho. Fazer em grupo ajuda a formar o hábito.

Além disto, fazendo de forma coletiva se pode adquirir mais informação sobre hábitos ecológicos e internalizar melhor a sua prática. Como um grupo de bailarinos que depois de um tempo de ensaio coletivo dança quase automaticamente quando começa a musica.

Também é preciso acreditar que nossos hábitos fazem diferença. Mesmo quando se recebe muitas mensagens pessimistas e desestimuladoras devemos persistir. Mudanças nunca são fáceis e exigem coragem. Mesmo diante de previsões catastróficas não devemos esmorecer e seguir buscando cumprir nossos compromissos em relação à perpetuação da teia da vida na grande sinfonia do Universo.

Agindo assim, além de estarmos em paz com nossa consciência estaremos envolvidos em milhares de conexões ocultas e construtivas com todos os demais seres vivos do planeta. Manter hábitos em prol da vida te devolve muito prazer e vitalidade, pois estás em sintonia com o desejo de viver e se expressar em plenitude que caracteriza todas as formas de vida deste mundo.

Foi baseado neste tipo de cooperação que a vida se desenvolveu no planeta. E é usando esta mesma estratégia que sairemos deste buraco civilizatório em que nos metemos deste quando passamos a acreditar que não fazemos parte da grande sinfonia do universo.

Arno Kayser

Agrônomo, ecologista e escritor

 

 

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