A FORÇA DAS ENCHENTES

As enchentes são manifestações de força dos rios. Momentos em que se operam grandes transformações na paisagem, deslocando sedimentos que se espalham nas partes baixas dos vales.
Um processo natural de autodepuração dos rios em que grandes cargas de minerais e matéria orgânica são transferidos das águas para os solos inundados. Processo que alivia os rios desta carga que na água pode gerar transtornos à vida aquática e a pureza do líquido que nele escorre.
Permanecendo os sedimentos minerais diminui a transparência das águas prejudicando a entrada de luz solar que a partir das algas movimenta toda cadeia alimentar. Além disto, se comportar metais pesados e substâncias tóxicas pode comprometer a saúde dos animais aquáticos.
A matéria orgânica, por sua vez, ativa a vida microbiológica gerando superpopulação destes seres que consome todo o oxigênio dissolvido. Em geral a principal causa das grandes mortandades de peixes. Já na cheia os peixes entram nas áreas inundadas para se reproduzir.
Mas modernamente as enchentes têm servido para os rios se livrarem do lixo neles lançado. Em particular o não biodegradável, como plásticos e garrafas pet. Também as cargas de esgoto doméstico e industrial são, em parte, eliminadas desta forma.
Se o lixo e os esgotos tóxicos são um problema indesejável, os sedimentos minerais, a matéria orgânica e mesmo parte do esgoto fora do rio acabam fertilizando estes solos. Razão pelas quais as áreas inundáveis costumam ter grande fertilidade natural.
A Humanidade, ao praticar agricultura, soube valorizar o fenômeno. As civilizações agrícolas surgiram próximas aos rios não só para ter água, mas também porque ai havia solos férteis capazes de manter grandes populações. Basta lembrarmos os casos do Crescente Fértil, do Egito Antigo, do Vale Amarelo e do Ganges para vermos a importância das enchentes no desenvolvimento da Civilização.
Mas está benção trás seus riscos. Especialmente ao se alojar populações em área de risco de cheias. Por isto sempre estivemos atentos aos danos que as enchentes podem causar.
No Brasil temos várias cheias marcantes. Em Porto Alegre até hoje se fala da enchente de 1941 que inundou o centro e modificou a relação da cidade com o Guaíba após a construção do Muro da Mauá. No vale do Sinos e do Caí as enchentes são recorrentes e muitas entraram para a história destas regiões.
Contam que no Vale do Itajaí os índios, ao verem chegarem os brancos se armaram para a guerra. Mas quando viram onde eles se instalaram se desarmaram porque acreditaram que o rio liquidaria a Colônia. Até hoje a região paga um preço pela opção dos primeiros migrantes.
Em Manaus há marcas das cheias do Rio Negro no porto. Uma atração local e que registra a importância da cheia no repovoamento da vida do rio quando ele entra nos igarapós e igarapés.
A cidade de São Paulo freqüentemente é parada por cheias porque as vias de trânsito foram feitas na margem do Tietê e do Pinheiro. Não por acaso as avenidas são conhecidas por marginais.
Pelo mundo afora esta relação de medo e fascínio se mistura ao fenômeno da enchente. Se por um lado ela é problema especialmente por falta de planejamento na ocupação do território ela também é um fenômeno de renovação da vida das margens dos rios e de purificação das águas.
Sempre tive vivo interesse pelas cheias. Ainda menino, pela mão de meu avô, fui ver a grande cheia de 1965 no Rio dos Sinos. Ali comecei a aprender que se soubermos nos colocar bem em relação a ela podemos minimizar muito seus impactos negativos e gozar de seus benefícios.
Particularmente devemos proteger os Banhados, Pantanais e Veredas como áreas de expansão natural dos rios. Conhecer estes ambientes e pesquisar a história das enchentes de nossos rios é um belo tema de educação ambiental.
É só uma questão de entendermos o fenômeno e se relacionar com ele uma vez que é parte da dinâmica de todo rio e sem as enchentes muito da beleza e pujança não se manifestaria.
Arno Kayser
Agrônomo, Ecologista e Escritor

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