SÁBIOS CONTEMPLANDO FLORES

Sempre que chega a primavera há uma fascinante explosão de exuberância esfuziante. Quem anda pelas ruas acaba reparando na fartura de flores que muitas espécies exibem. As plantas se esmeram em “divulgar flores” como gostava de dizer seu Hilário, veterano viverista do antigo Horto Botânico de Novo Hamburgo. Com o que concordava seu colega Roberto acrescentando que “ano de muita flor é ano de felicidade para o colono”
Estes belos ditos e formas de expressão popular traduzem uma velha sabedoria empírica que atesta a sagacidade e inteligência de homens ligados à natureza e seus ritmos. Ainda que iletrados ambos revelam uma capacidade de dialogo com a terra e os ciclos vitais do planeta que muitos doutores de gabinete já não têm. E não queremos aqui negar a importância do saber acadêmico, posto que também dele nos valemos.
Mas depois de anos de convívio constante com a terra e seus trabalhadores tive a oportunidade muitas vezes de admirar a sabedoria de homens simples e observadores capazes de traduzir em expressões entre engraçadas e líricas toda uma relação de diálogo com a natureza. O que certamente tem lhes dado muita ajuda em sua labuta pela sobrevivência. Ainda mais quando aliada ao “saber dos livros” que eles respeitam e reverenciam.
Tenho aprendido muitas coisas nestas conversas francas e despojadas de estilo com estes homens de mãos calejadas que nem sempre recebem o devido valor. Nossa cultura não valoriza o trabalho manual tanto quanto a malandragem dos Pedro Malasartes que comandam nosso espetáculo ou a empáfia dos doutores de gabinetes.
Foram anos de contato com a terra que lhes mostraram que uma primavera de muita chuva trás tempos de muita flor. Isto porque a água das chuvas, além do precioso líquido trás muito nitrato ao solo. Ambos fundamentais às atividades fotossintéticas donde vem a grande disponibilidade de energia necessária ao delicado processo de florescimento. A mesma chuva garante safras gordas ao plantador que na colheita tem a recompensa de sua labuta. E safra boa é fartura. Coisa essencial para uma vida feliz. Fatos que se traduzem nestas jóias de expressão popular. Frutos de anos de paciente observar ditos de modo direto, simples e compreensível a qualquer um dotado de sensibilidade.
Se formos pensar bem eles são o resultado de um trabalho muito semelhante, no método, ao do pesquisador científico. Ainda que sem o rigor deste eles também são fruto de paciente trabalho de observação. A diferença esta muito mais na forma de enunciá-los. Enquanto um faz uso de postulados e conceitos complexos o outro faz uso de palavras simples. Mas em essência trazem o mesmo conhecimento à tona. A diferença corre mais por conta do fato de que os anos ruins do colono não significam apenas uma colheita de dados numéricos baixos. Significam dor, sofrimento e fome a marcar vidas de um modo muito profundo. Este saber se impregnou nas veias e na carne com a mesma intensidade que se gravou na memória destes colonos. Por estar assim marcado no corpo inteiro é que eles, ainda que usando palavras toscas, conseguem dar-lhe um toque de beleza tal que só vamos encontrar nos mais apaixonados pesquisadores. É algo que vem com energia e a beleza de um todo a se expressar.
É justamente por isto que são fonte de beleza e cultura verdadeira. Porque são fruto do diálogo, nem sempre ameno, com a natureza. Modela-se em uma forja diferente e por isto vêm carregados de uma força que poucos acadêmicos conseguem impregnar aos seus escritos. Falta o tempero da dor e da alegria que vem junto com a acumulação de verdadeiro saber. O saber que é fruto de um diálogo intenso e de corpo inteiro com a natureza que é a verdadeira fonte da eterna sabedoria.
Sabedoria que se revela de mil maneiras igualmente belas pelos quatro cantos do mundo em todos os lugares onde os homens ainda permanecem ligados à terra em manifestações que fazem a beleza dos relatos dos viajantes e aventureiros de todos os tempos. Beleza que o processo geral de padronização e imbecilização glamorosas que assistimos por aí tem atropelado de um modo sistemático com o aplauso de milhões de ignorantes doutos ansiosos por poder e novidade. Como se a novidade fosse o melhor e como se a vocação do planeta fosse virar um único shopping center.
Creio que falta a estes amigos da última moda um pouco da vivência que se traduz de modo tão rico na boca dos muitos sábios empíricos e iletrados. Lhes faria muito bem desviar um pouco o olhar deste brilho luminoso e ir sentar aos pés de uma árvore que a chuva farta faz florir. O canto dos pássaros e o cheiro das flores certamente lhes traria um pouco de paz que tanto lhes faz falta nestes nossos dias. Paz de espírito que torna as pessoas interessantes e bonitas de verdade e não só de fachada.

Arno Kayser
Agrônomo, ecologista e escritor

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