DAS CONTRADIÇÕES DA VIDA

Uma das coisas mais duras na vida é ouvir de quem se ama um corte ou uma repressão a um gesto criativo nosso. Principalmente quando o nosso gesto é de revolta construtiva contra as contradições inerentes à nossa forma de viver. A dor que se segue nestas horas é difícil de descrever. Mas é uma das piores, principalmente porque vem acompanhada por uma sensação de impotência e desanimo.

Nossa sociedade é tão perversa e maquiavélica que geralmente é o amigo que vira o agente da repressão. Os artífices de verdade escondem-se atrás de mil ante-salas e se colocam sempre numa pose de bacanas. Eles sempre estão bem. Mas por trás criam um ambiente de pressão, explorando nossos medos e inseguranças e nos convertem em carrascos daqueles que mais amamos. Nesta confusão em que vivemos a censura vem muitas vezes por uma mão amiga. E nós, mesmo sem querer, muitas vezes rateamos e viramos carrascos de outras pessoas que gostamos.

Somos nós que dizemos o não na hora do sim e o sim na hora do não. Tudo só para confundir e reprimir a revolta sadia. Àquela que denuncia esta palhaçada toda que nos impingem como felicidade e que não passa de sonhos bem embalados. E o triste é que se a gente não se dá conta disto acaba xingando nossos verdadeiros aliados. Àqueles que nos amam de verdade. É nestes lances que muitas vezes acabamos nos dividindo e nos enfraquecemos. O que torna a coisa mais fácil para quem está escondido e encastelado no poder. Quem realmente tem medo da vida e usa seu poder para nos converter em zumbis consumistas. E o pior é que se a gente não se antenar acaba machucando a quem nos ama. Dando porrada em quem precisa de nosso carinho. Ferindo quem está buscando a mesma coisa que nós.

Por isto é legal estar sempre atento. Encarar os socos da vida como desafio e não desistir. Se nosso protesto não deu de um jeito temos de tentar de outra forma mais sutil. E com isto procurar voltar com força nova. Sabendo perdoar a quem nos feriu e sendo humilde quando se errou. É preciso consciência que todo mundo está numa sinuca braba. A falta de orientação e lucidez é geral. Em certos momentos a vida nos apronta umas em que a gente vira algoz ou cai em contradição. O que não se pode é baixar a cabeça. Tem que enxergar fundo e ver de onde a coisa vem de verdade. Quem é o verdadeiro artífice do processo de destruição da vida e quem está nos ajudando. E não desistir. Mesmo porque quem está na roda da morte vai cair por obra de seus próprios hábitos. O novo vai crescer em cima deste adubo. Porque a real é que todo poder destruidor que está governando o mundo se alimenta da nossa divisão. Tanto a divisão interna quanto a externa. Os ditadores e seus agentes mexem com a nossa criança medrosa. Isto porque ele também é uma criança assustada que grita para se defender. O truque é por o nosso adulto na roda e comunicar-se com o adulto do outro. Mesmo o mais terrível dos inimigos da vida é um ser vivo. E aí está seu “Calcanhar de Aquiles”. Se você não permanecer recuado e enfrentar os limites das circunstâncias o processo se reverte. O importante é não perder a lucidez, lamber a ferida e retomar com mais entrega. Mesmo quando é uma voz amiga a mensageira da doença.

Nestas horas é preciso distinguir bem as coisas e se unir. Mas uma união que preserve e respeite a individualidade de cada um. Não esta coisa de manada que muitos falsos profetas e maus políticos pregam. Para reverter à roda da morte precisamos de uma aliança que respeite as peculiaridades e o processo de cada um. Mesmo porque o crescimento do coletivo é fruto do crescimento de indivíduos que assumem seu compromisso com a vida. É fundamental jogar limpo sempre. Quando se leva uma porrada é importante dizer que não gostou. Que doeu. Principalmente quando a porrada vem de um amigo. É a melhor forma de ajudar o amigo crescer e mostrar que a gente não está entregue enquanto estiver vivo e capaz de entender as limitações e contradições de quem se abre e expõe suas opiniões em determinadas circunstâncias da vida. Mesmo porque esta pessoa pode estar revelando os seus limites pessoais. O fundamental é ver a coragem de se expor para ti. Mesmo nos enganos devemos ver estas manifestações como prova de seu interesse por ti e não abandonar a relação ou o trabalho em comum. “Viver é perigoso”, como diz Guimarães Rosa. Mas só supera o medo quem se arrisca.

O lance é que o mundo não está pronto. Não é o que a gente sonha. Nem nunca será a não ser que a gente faça algo pra que ele aconteça. E isto é fruto da ação coletiva. Porque não podemos nos dispersar nem fugir do nosso posto. De alguma maneira a gente vai conseguir dizer o quer. Se um espaço se fecha é preciso ir em busca da brecha que pode estar ali adiante. Mas sempre procurando preservar as relações com os que nos amam e com os que amam em gesto e ação, a vida.

Arno Kayser

Agrônomo, ecologista e escritor

 

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