SELBST GEMACHT

 Talvez uma das maiores perdas da sociedade consumo é a do prazer de algo do princípio ao fim. Vivemos consumindo coisas prontas. Chupetas para iludir nossa carência afetiva. Ficamos estáticos esperando que traga nos algo pronto, acabado e pré determinado em sua forma, por alguém estranho e impessoal: a indústria. Até podemos trabalhar dentro dela. Mas numa esteira, cada um é só um robozinho que executa uma pequena parte do processo.

Pálida sombra do artesão que cria a peça busca e prepara o material e depois se entrega com esmero e maestria a doce manipulação do fazer. A mão sempre foi a salvação da cabeça. Se não a tivéssemos para concretizar os anseios que a mente criadora concebe, esta mesma energia se volta contra nós e nos destrói, pois não se converte em obra. No processo construtivo ela se manifesta por inteiro. Ora com força, ora com delicadeza e habilidade, realizando e dando paz ao nosso espírito. Não é outra a razão da aplicação de terapias ocupacionais no tratamento de doenças mentais. O ser que não faz enlouquece. O que faz em parte e perde a noção do todo, também adoece. Muito da neurose do nosso tempo vem da insegurança gerada pela falta de fé na própria capacidade realizadora. A insegurança de quem não se sente capaz de realizar algo. De quem não sabe, por falta desta experiência, que tudo é processo. Que em tudo há dificuldade e alegria. Dificuldade a ser contornada por nossa capacidade realizadora. Alegria de superar e realizar. De fazer algo bonito. De se sentir capaz de enfrentar desafios. Por trás de toda obra há um processo de dor e prazer. Há esforço e sacrifício. Autosuperação e realização que acalma a mente e o espírito. Quem só enxerga e consome a coisa pronta não tem noção disso e vive acuado por seus medos e sua falta de fé em si mesmo. É alguém que não se abre. Que não troca. Vulcão contido tendendo a autocomiseração ou a busca frenética de satisfação em algo externo. Ignorante total de que o verdadeiro prazer provém da ação criativa. Da comunicação através do objeto criado que sempre trás o sentimento e o suor do artífice em suas particularidades. Numa sociedade massificada em que a tendência do mundo é a de virar um único grande Kistch o que mais faz falta é justamente isto. A tranqüilidade do artista após o gozo. A serenidade de quem sabe que a vida é desafio e confia no conhecimento e domínio da sua própria destreza em superar desafios. A paz de quem sabe que pode e já não precisa mais afirmar sua força em jogos brutos e tolos. Esta castração criativa é um dos esteios da doença moderna. Da neurose cotidiana que irrita todo mundo. Mas só saber disto não basta. Para transformar esta geléia geral que vivemos nalgo decente, digno e verdadeiramente humano não podemos ficar parados. É preciso fazer algo. Meter a mão na massa e fazer a coisa acontecer. Largar de mão de esperar a coisa pronta e ir ajudar a coisa acontecer. Se abrir para o mundo e para a vida. É preciso invocar a força criativa que há em cada um e confiar que a ajuda virá. As forças criativas do Universo nunca abandonam os sacerdotes da ação consciente. O segredo é por amor na coisa e fazer para o mundo aquilo que tu espera que ele faça para ti. Esta postura é uma verdadeira revolução. Tanto individual quando coletiva. É preciso urgentemente por a mão na roda, antes que tudo dance e o planeta se afogue no neste nosso lixo colorido. E antes que me esqueça é bom lembrar que uma das coisas que mais orgulha um alemão lá no dito primeiro mundo é mostrar algo que ele fez com suas próprias mãos. “Das habe ich selbst gemacht” é algo que eles adoram dizer. É tri bom dizer que “eu mesmo fiz isto”. Nem que seja o jardim de sua casa. Ou um rango para os amigos. Qualquer coisa em que a gente se ponha por inteiro. É desta maneira que vamos subverter este mundo de ovelhinhas marchando para o sacrifício. Não podemos nos entregar. Isto é tudo que eles querem de nós. A cada paulada a gente tem que voltara tentar. Vamos pincelar esta coisa cinza. Botar a nossa cor nisto. Tudo pelo prazer de descobri-la e revelá-la. Pois a verdade é que nada nasce pronto. Tudo é fruto de trabalho. A beleza brota da mão que expressa à beleza de uma alma sensível. Coisas que precisam acontecer como testemunho de um mundo que é possível para vida prosseguir neste mundo.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

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