NEVES NO DESERTOS

 

Quem já viajou pela Argentina sabe que grande parte deste país se caracteriza por ser uma imensa superfície plana que sobe lentamente do Atlântico até pouco antes do Pacífico. Em mais de mil quilômetros o território argentino sobe pouco mais de mil metros até o pé da cordilheira dos Andes. É nesta região que o país alcança as suas maiores altitudes num claro contraste com a paisagem que domina grande parte de seu território. Ali ela, em poucos quilômetros, ergue-se rapidamente atingindo as alturas de até sete mil metros no cerro Aconcaguá, ponto culminante da América. Esta montanha, junto com o cerro Tupungato, segundo em altura, forma a linha mais alta da espinha dorsal do nosso continente. Conhecida como Cordão Blanco a região é um verdadeiro reino das neves eternas com seus picos de mais de seis mil metros. Terreno só percorrido por uns poucos e ousados escaladores de montanhas.

A barreia natural dos Andes cria um obstáculo poderoso aos ventos do Pacífico. Estes sobem a cordilheira pelo lado chileno e vão descarregando toda a sua umidade. Fenômeno que faz com que o lado argentino seja um deserto onde chove menos de 200 milímetros anuais. E, no entanto, a província de Mendonza é uma das mais ricas regiões agrícola da Argentina. Famosa no mundo todo por seus vinhos, maças, passas, nozes e outras frutas.

Tudo graças ao engenho humano que soube aproveitar as águas do degelo das montanhas que descem por vários rios de forma torrencial, em especial, na primavera. Arte inicialmente desenvolvida pelos povos indígenas da região e que posteriormente foi aperfeiçoada pelos imigrantes europeus que trouxeram as finas castas viníferas para o deserto. Estas, graças ao clima desértico, quase não contraem doenças fungicas típicas de ambiente úmido. Com isto quase que dispensando por completo o uso de venenos agrícolas que sempre acompanham culturas plantadas em ambientes inadequadas às suas exigências.

Quem visita a região pode apreciar uma rede fantástica de canais de irrigação que conduzem a água até as “ficas” agrícolas. Rede que se inicia em grandes diques nas partes mais altas junto à pré cordilheira e que desviam a água por grandes canais que seguem paralelos à cadeia montanhosa até uma série de canais secundários que abastecem os produtores e as próprias cidades. Um sistema rígido de turnos estabelece a cota de água destinada a cada produtor que, por inundação, irrigam suas plantas. As próprias cidades possuem um complexo sistema de canais que fornecem água para a arborização da cidade e seus parques. O que faz delas verdadeiras florestas em contraste com a vegetação agreste das partes não cultivadas. Tal sistema consegue transformar a região num verdadeiro oásis de fartura. O que garante alimento para uma população considerável e ainda permite exportar muito vinho e comida para outras paragens.

Obviamente que as águas do degelo têm limite. Coisa que a população sabe muito bem. As áreas cultivadas estão limitadas por este fator. Nelas a produtividade é intensa. Mas fora destes limites o deserto permanece intacto por milhares de quilômetros quadrados cortados apenas por rodovias. Nelas se pode avistar toda a beleza da vegetação agreste adaptado ao regime hídrico escasso. São plantas ásperas e resistentes, mas nem por isto deixam de ser belas e compõem com as montanhas e planícies imensas uma paisagem fascinante onde a vida selvagem se manifesta livremente.

Um ótimo exemplo de convivência do homem com o meio natural. Da sábia administração de recursos escassos ele consegue amplos rendimentos agrícolas em áreas restritas. O que permite a preservação de grandes áreas da paisagem natural sem por em risco a sobrevivência de uma população num bom nível de vida.

Este modo de vida de respeito aos limites imposto pela natureza combinado com o porte majestoso das montanhas, a formosura de alguns canyons e a beleza do deserto fazem da região um dos destinos mais famosos do país. Um exemplo que vale a pena conhecer e uma amostra de como é possível vivermos com fartura se soubermos respeitar os ritmos naturais da sua região…

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

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