A MAGIA DO PECULIAR

Kreuzberg é o bairro turco de Berlin. Ali vivem milhares de imigrantes do Oriente Próximo que vieram em busca de melhores de oportunidades de vida. Chegaram ainda nos tempos do Muro. Época em que a cidade abrigava um número muito grande de exilados políticos e também jovens alemães que não queriam servir no exército. Vivem em velhas construções que estiveram por muito tempo abandonadas que foram por eles invadidas, recondicionadas e mobiliadas a partir de materiais postos no lixo pelos alemães mais ricos. Lixo de primeiro mundo, diga-se de passagem, e que possui muito material em bom estado que é posto na rua em certos dias para quem quiser pegar.

Esta população isolada pela língua, pela tez e pelos costumes religiosos formou um lugar único na capital alemã, com peculiaridades difíceis de serem vistas em outro lugar do mundo. Junto com eles, que formam o maior contingente, há toda uma gama de estrangeiros pobres e mesmo trabalhadores e jovens alemães. Por ter ficado muito tempo junto ao lado ocidental do velho Muro que separava comunistas e capitalistas o bairro desenvolveu um colorido todo especial, pois as casas produzidas dos materiais catados têm pinturas e formas bizarras. Muitas abrigam grupos de contestação política facilmente identificadas por faixas e dizeres políticos.

O bairro da Boca, nas cercanias do Caminito, em Buenos Aires é a zona dos trabalhadores do porto. Ali vivem os estivadores e todos os operários que trabalham na manutenção e reforma de barcos que atracam na cidade. Gente que herdou as casas abandonadas pelos ricos quando estes fugiram para outras regiões quando houve uma peste de febre amarela na cidade. Suas casas foram edificadas com os restos dos materiais que sobravam dos navios e pintadas com as sobras de tintas das reformas dos barcos. Por isto têm um colorido bizarro resultante do emprego de várias sobras numa mesma parede. Convivem cores diversas nas esquadrias e paredes, compondo um mosaico bonito que fez do Caminito e arredores uma das maiores atrações turísticas da cidade. Ponto de venda de artesões e até tema de tangos. Um lugar sem igual no mundo, construído com os restos da navegação internacional.

A favela da Rocinha, encravada em plena zona sul do Rio de Janeiro, é uma mundo a parte dentro da Cidade Maravilhosa. Território de milhares migrantes pobres que vêm buscar uma chance na vida. Sua arquitetura é obra de uma verdadeira engenharia de sobrevivência que desafia todo tipo de cálculo numa amostra de criatividade e capacidade de adaptação que forma um contraste com os prédios modernos situados logo abaixo. Verdadeira atração turística à parte do aspecto miserável da maioria de seus residentes.

Todos estes locais têm em comum o fato de ser fruto da pobreza e da capacidade de adaptação de seus moradores. Estes, a partir de recursos escassos e sobras dos demais, constroem um mundo único e peculiar. Coisas que não se repetem em nenhum outro lugar do mundo em forma e aspecto, por serem frutos da relação dinâmica do ser humano simples com o meio natural e os recursos que lhe quedam na grande engrenagem da civilização. Têm muito em comum com as grandes paisagens naturais e os ecossistemas mais incomuns do planeta. Estes também são produto de recursos naturais limitados que os seres vivos dispõem. Da sua inter-relação é que surgem as paisagens naturais mais raras.

Estes locais têm algo de peculiar e próprio que atesta a inteligência e capacidade de adaptação de seus moradores. São locais tão únicos como as aldeias mais distantes da civilização, onde as diversas populações autóctones ainda conservam sua identidade cultural. Ali também há pobreza material, mas como nos bairros pobres sobra inteligência e solidariedade. Instrumentos que eles trazem para a cidade a ajudam na gestação destes verdadeiros caldeirões culturais únicos. É neles que as cidades assumem seus aspectos mais únicos.

Fora deles impera esta monotonia que cada vez mais uniformiza as grandes cidades do mundo. Um Sheraton hotel, uma loja Pierre Cardin ou um Mac Donald vão sempre seguir a mesma formula, não importa onde estejam. São frutos deste medo do desconhecido e da tendência de produção em série. Estruturas rígidas e artificiais que não se adaptam à paisagem onde estejam. São sempre as mesmas coisas. Herdeiras da tecnologia mundial. Da militarização e da falta de jogo de cintura. Espaços sem graça que só mantém a custa de muita energia e matéria prima. Verdadeiros cânceres que sugam todos os recursos que faltam a muitos e que são a causa direta da pobreza no mundo.

Mas uma coisa é certa. No caso de uma crise real de energia ou matéria prima estes mastodontes serão os primeiros a cair. Há muito mais chance de sobrevivência nos Caminitos, nos Kreuzberg e nas Rocinhas do mundo, pois é ali que a população já está acostumada com a escassez e vivem exercitando sua capacidade de adaptação. Seus moradores, por serem mais sofridos, têm mais resistência e capacidade de sobrevivência. Eles, como ninguém, sabem como bem aproveitar os recursos escassos e certamente com uma melhor distribuição das coisas no mundo seriam alguns dos mestres para uma sociedade mais diversificada, mais adaptada ao meio e mais rica em manifestações culturais.

Uma sociedade mais justa e ecológica. Não uma sociedade de grandes conglomerados frutos de receitas prontas como estas que têm conduzido ao desequilíbrio o planeta, mas uma sociedade que seja mais flexível e derivada do diálogo intenso com o meio e seus recursos naturais e culturais. Um mundo onde a magia do peculiar impere em cada canto.

Arno Kayser

Agronômo, Ecologista e Escritor

Novembro de 1991

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