O CAMBURÃO

A fiscalização chega para conferir uma denúncia de criação de porcos na zona urbana. A Blaser, toda pintada de verde com dizeres na porta, encosta na casa do denunciado.

O município era uma antiga vila rural recém emancipada. Pouco mais do que uma estrada grande com a prefeitura e a igreja no alto de um morrinho. As casas da “cidade”, ao longo da avenida principal. Nos fundos as terras agrícolas em lotes perpendiculares à estrada.

Informando de que não poderia criar porcos em zona urbana, o colono afirma que o chiqueiro no fundo da casa, esta na zona rural. A zona urbana  terminava uns poucos metros atrás de sua casa. Só ela ficava na “cidade”. Além disto ele tinha licença. Era só ir lá na prefeitura verificar.

A fiscalização decide fazer isto. O agricultor pede para ir junto e embarca no carro banderoso. Na prefeitura a chegada do carro causa impacto e confusão.

Ninguém sabe aonde há um mapa com a demarcação da zona urbana. O fiscal de meio ambiente é tercerizado e só vem nas quartas feiras. O topógrafo da prefeitura estava de férias.

O fiscal insiste. Fazem ele entrar no gabinete do prefeito. A secretária deste chama o advogado e todo o estafe técnico disponível para tentar desvendar o caso.

Alguém lembra do mapa do município. Trazem ele correndo e o põem na mesa. Inicia-se uma discussão tremenda entre os presentes. Ninguém chegava a um acordo sobre os limites da zona urbana. Alias nem sobre onde eram as entradas e saídas da cidade ou mesmo o nome da ruas e a localização da prefeitura. Quando a discussão começou a esquentar o fiscal intervêm e com um leve toque virá o mapa que estava com o norte apontando para o sul geográfico, no momento.

Maravilhados todos quedam quietos e meio envergonhados de não terem reconhecido a própria cidade. O fiscal pergunta se a prefeitura poderia fornecer um croqui do caso do colono com a demarcação exata dos limites urbanos e os prédios da propriedade, em particular os chiqueiros.

Asseguram que em poucos dias remeteriam todos os documentos necessários. Isto posto saem o fiscal e o colono da prefeitura. Na porta um cara furioso os recebe. Aos berros diz que não podem prender seu irmão só por causa de uns porcos. O fiscal pergunta porque ele acha que estão prendendo o irmão.

O esquentatinho afirma que chegará na casa do irmão e a cunhada dissera que ele embarcara num camburão e seguira, preso, para a prefeitura por causa do chiqueiro.

O camburão em questão era a viatura da fiscalização.

(PS: Uns tempo depois os documentos remetidos pela prefeitura comprovaram que o chiqueiro ficava na zona urbana e não tinha licença alguma).

Arno Kayser

Agrônomo Ecologista e Escritor

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