A COSTA BRASILEIRA: NOTAS DE HISTÓRIA NATURAL

Ecótono. Este termo, que soa pouco familiar para a maioria, faz parte do cotidiano dos que se dedicam ao estudo do meio-ambiente. Ecótono, na ecologia, indica o encontro de dois biomas. E marca a região fronteiriça entre grandes unidades da paisagem natural, lugares onde as condições ambientais de repente mudam, exibindo fauna e flora diferentes.

Um dos melhores exemplos de Ecótono é a linha da praia. O litoral é o limite entre dois universos paralelos e ao mesmo tempo distintos. De um lado, o oceano com sua imensidão de criaturas marinhas. Do outro, terras emersas habitadas por aqueles que não conseguem sobreviver ao mar.

Assim como as fronteiras que delimitam países, a linha litorânea também é o produto de fortes embates. Mas ao contrário de forças políticas, suas alterações vêm de impulsos naturais. Nas profundezas, os abalos sísmicos movimentam as placas tectônicas que se deslocam, em velocidade geológica, alterando as praias. Já na superfície, há o choque dos ventos oceânicos, das correntes marinhas e das ondas que lutam contra o fluxo dos rios e que moldam os sedimentos, esculpindo as rochas costeiras.

Deste esforço, surge o desenho do litoral. Um longo e impreciso traçado cujos pontos alteram as relações entre estas forças. As praias brasileiras surgiram entre 90 e 130 milhões de anos atrás, quando um processo tectônico de proporções colossais separou o mega continente de Gondwana, criando as costas da África e da América do Sul.

Este movimento originou o Oceano Atlântico e segue até hoje se deslocando três centímetros por ano. O foco ativo principal se dá no meio do Atlântico, na altura da Ilha da Trindade, onde as forças geológicas continuam pressionando a placa continental Sul-americana para cima.

Nos primórdios, boa parte do litoral brasileiro foi pré-traçado com a disposição de uma cadeia de montanhas de origem vulcânicas alinhadas no sentido norte sul, formando o elemento hoje conhecido como Serra do Mar. Esta formação de granito é determinante no desenho do litoral que vai de Santa Catarina até Salvador na Bahia.

Já no extremo sul, no nordeste e no norte há um processo de arenização que marca a paisagem de boa parte do litoral brasileiro. Nas praias destas regiões quem transporta a areia é, principalmente, o vento. Sua deposição na costa, ao longo dos séculos, formou diversos ambientes litorâneos de transição.

Enquanto isso, o litoral norte é marcado pela foz da Bacia do Amazonas cujas águas trazem uma carga enorme de sedimentos até a costa. Esta região foi criada por entradas de águas que vieram do Oceano Pacífico, em eras geológicas anteriores à formação dos Andes.

Na Amazônia, a umidade do mar não encontra barreiras e avança continente adentro para alimentar a Hiléia Amazônica. Já na região da Serra do Mar esta umidade se depara com o obstáculo das montanhas e se condensa no degrau da serra e forma a chuva que banha a Mata Atlântica.

Bem no sul do Brasil, atuam as correntes frias da Antártida que geram um clima mais seco e frio, permitindo o avanço da vegetação patagônica. Já nas partes altas da Serra Geral, há o avanço da vegetação andina adaptada ao frio. A primeira é uma mescla de matas baixas de restinga combinadas com banhados e lagoas rasas. A segunda é caracterizada por matas de Araucária dos altiplanos da região sul.

No nordeste, a fisionomia sofre grande influência do vento marinho e dos centros de alta pressão da caatinga, gerando uma paisagem de dunas e falésias. Dunas que são fósseis frutos do soerguimento do continente, onde o mar ataca a base e faz com que a parte superior despenque formando degraus quase verticais. Nesta região a vegetação é menos exuberante que na Amazônia ou Mata Atlântica devido ao menor fluxo de chuvas. São regiões que estão na borda dos centros de alta pressão com seus períodos bem marcados de estações secas e chuvosas definidas pelo deslocamento das correntes de ventos que vêm do mar.

Em pontos do litoral onde deságuam grandes rios, especialmente quando em enseadas e suas baías ou em zonas protegidas por recifes ou ilhas costeiras, surgem situações peculiares. Da mistura salobra de rio e mar nasce um ambiente especial: o mangue com sua vegetação típica. Espaço de reprodução de espécies de animais e plantas do mar e do continente e que dá suporte ao extrativismo dos caranguejos.

Por tudo isso, o litoral brasileiro é tão distinto e diverso. Seus aproximados 7.400 km de extensão (se contarmos as voltas do terreno são mais de 9.200 km), são divididos em quatro grandes unidades: Litoral Norte ou Amazônico, Litoral Nordestino, Litoral Sudeste e Litoral Sul.

Uma riqueza geográfica que somada às condicionantes climáticas gerou um mosaico de paisagens em toda a costa brasileira. São estuários, deltas, ilhas costeiras e oceânicas, mangues, restingas, praias, falésias, matas, costões rochosos, recifes e áreas úmidas.

Paisagens que foram testemunhas da passagem da vida do mar para a superfície terrestre. Um processo de milhões de anos. Um imenso salto na diversificação da vida que acabou resultando no aparecimento da espécie humana.

Talvez por isto tenhamos tanto fascínio pelas praias. Uma nostalgia atávica nos atrai. Saudade de tempos em que os antepassados viviam no mar. Espécie de sentimento da etapa uterina que agora habita nossos instintos.

As praias brasileiras, assim como as demais, serviram de palco para o processo que desaguou na ocupação humana do litoral e na construção da identidade do povo brasileiro. Mas é importante lembrar que isso trouxe grandes alterações na fisionomia original.

Atualmente, temos uma densidade demográfica de 87 pessoas por quilômetro quadrado de costa. Uma alta concentração populacional que gerou metrópoles e cidades de médio porte. E que trouxe portos, zonas de exploração turística, centros industriais e até plantas atômicas.

Veio a remoção de vegetação natural, a extinção de fauna silvestre, a urbanização desordenada, os esgotos urbanos e industriais, o lixo mal disposto, a drenagem de áreas úmidas, a ocupação de dunas e projetos de aquacultura.

A eles, somaram-se impactos de sedimentos agrícolas trazidos pelos rios, derrames de óleo e produtos tóxicos no mar, desabamentos de encostas, alterações da hidrodinâmica marinha e alterações de vazão de foz de grandes rios por barragens em seus cursos superiores.

Fatos estes que descaracterizaram muitas praias, poluíram as águas, ocultaram a beleza natural primitiva e destruíram o meio de vida de populações tradicionais.

Felizmente, muitos aspectos naturais ainda sobrevivem em praias esquecidas pela modernidade. Lugares pouco alterados, onde podemos descansar os corpos cansados e conviver com formas simples de viver. Locais onde ainda é possível ler com clareza os registros do grande livro da natureza e aprender sobre a verdadeira história natural da costa brasileira.

Arno Kayser Agrônomo, Ecologista e Escritor

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