QUALIDADE DE VIDA

“O mundo é capaz de prover a todos o suficiente para as suas necessidades básicas. Mas não é grande o bastante para prover os desejos de uma só mente ambiciosa” Gandhi livremente citado.

O que é qualidade de vida? Eis uma questão muito discutida nos nossos dias.

Quem vê os anúncios publicitários pode fazer uma boa idéia do que significaria qualidade de vida para quem os produz. Quase todos os comerciais apresentam algo “fundamental” para ter qualidade de vida.

Tudo começa com uma casa espetacular no meio de uma imensa área verde. Na garagem alguns carrões, motos e barcos. Continua com uma mesa farta de uma família branca. Gente que freqüenta festas badaladas na companhia de alguém famoso ou estonteante. Pessoas que tem contas cheias de vantagens em bancos que mais parecem hotéis de luxo. Restaurantes caros também constam no cardápio. No plano pessoal é fundamental um corpo escultural, roupas de grifes e viagens por lugares chiques.

Estes apelos são tão fortes que milhões de pessoas fazem de tudo para conseguir ganhar dinheiro suficiente para poder comprar este tipo de qualidade de vida.

O resultado desta massa em movimento é uma competição muito feroz em que vale tudo pela grana. Este movimento, num mundo globalizado, é global também.

Por causa disto vemos pobres buscando as grandes cidades. Também os vemos entrando clandestinamente em países ricos. Também vemos cidadãos pobres dos países ricos em protestos na França, Alemanha e Áustria. Quatro ou cinco pessoas dos países ricos possuem mais dinheiro que metade dos países do mundo.

Vemos fundamentalistas pregando a guerra santa e conclamando a mobilização dos homens bomba. O coração de Nova York é posto abaixo por suicidas. A polícia inglesa mata, com balas “Dunduns” um jovem brasileiro confundido como terrorista (as balas são “muito boas” por que causam pouco dano material e são muito eficientes porque explodem dentro do corpo da vítima).

Os povos da África morrem de fome e AIDS. Os povos do Oriente Médio vivem num campo de batalha perene rodeados de alguns califados acintosamente ricos. Os políticos mais corruptos enriquecem mais nos países autoritários e tem seus roubos protegidos nos paraísos fiscais. Países que também servem para as grandes corporações transnacionais sonegarem impostos e embolsarem subsídios governamentais e o crime organizado internacional operar sem maiores questionamentos quanto à origem de seu dinheiro.

No Mato Grosso um ecologista se mata em protesto contra a destruição do Pantanal. No Nordeste um Bispo faz greve de fome em defesa do rio São Francisco. As florestas da Amazônia são, diariamente, arrasadas. Os produtos transgênicos são disseminados ao arrepio da lei e do princípio da precaução. O clima está mudando visivelmente. O gelo derrete nos pólos. Seca nas Florestas. Enchentes no sertão.

Cada vez mais jovens pobres aderem ao crime organizado na esperança de status e dinheiro fácil. Já os jovens ricos se entregam as drogas, aos antidepressivos e aos tranqüilizantes.

Os governos centrais reagem com medidas extremas de violência. Guerra aos países pobres que contrariam seus interesses. Quebra de direitos constitucionais no caso dos protestos internos.

Dizem que tem que acabar com os inimigos da liberdade, mas propõem um mundo em que só as mercadorias podem circular livremente. Pessoas não. A não ser que sejam muito ricas ou muito talentosas. Os demais que fiquem em casa e não venham atrapalhar a vida de qualidade dos anúncios publicitários e das notícias tendenciosas da grande mídia.

Para que este modelo de qualidade de vida seja estendida ao extremo para uns poucos não se tem pudores em qualificar os insatisfeitos de “terroristas”, se usam métodos violentos ou de “inimigos do progresso” se usam métodos pacíficos.

Tampouco acham importante preservar valores como o respeito à história, à natureza, às tradições familiares e as diferenças culturais. Ignoram todas as evidências que o planeta não comporta tal ritmo de consumo.

Os mais fortes que vençam. Os demais se aquietem se não podem vencer também.

As táticas de convencimento são perversas. Nas novelas se matam os bandidos. Não há direito de defesa e nem intervenção de um judiciário correto e eficiente. Os heróis da maioria dos filmes são tremendo assassinos sem escrúpulos morais. Nos vídeo games somos nós os que apertam o gatilho contra tudo.

As crianças são induzidas de tal modo ao consumo que é cada vez mais comum encontrar pequenos que acham Papai Noel mais importante do que Jesus no Natal. Os presentes são mais importantes que os abraços e o fato da família reunida.

Será esta a qualidade de vida que queremos? Um mundo de luxo para um bilhão de pessoas junto a um mundo de miséria para os outros 4 a 5 bilhões de humanos? Uma sociedade que patrola todos os tipos de sociedade que não compartilham do ideal de consumo?

Um processo produtivo que concentra capital as custas da devastação natural? Uma sociedade cada vez mais materialista e menos espiritualizada?

Uma relação com o sagrado baseada numa ética de prosperidade pessoal ao invés de uma ética de solidariedade?

São perguntas que temos que fazer. Mesmo porque nem para os muito ricos deste mundo à felicidade prometida esta se revelando possível.

Não podemos deixar de afirmar que a qualidade de vida nós queremos é diferente. E que ela esta ao alcance de todos dentro de uma lógica que respeita nossas relações com o nosso processo pessoal, os nossos semelhantes e todas as demais formas de vida do planeta.

Mais que uma negação da qualidade de vida, prometida na subliminariedade das máquinas de propaganda e na indústria de consumo de massa, ela é, sim, uma afirmação da qualidade de vida anunciada por todos os profetas de várias tradições culturais e defendida por movimentos sociais em todos os países do mundo.

 

Arno Kayser é agrônomo, ecologista e escritor

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