O desafio de resolver os engarrafamentos.

O carro é um dos símbolos da nossa civilização. Mais que meio de transporte ele é um dos ícones de uma sociedade individualista que busca no consumo o sonho de liberdade acima de qualquer coisa como valor máximo do projeto de felicidade pessoal.

O governo federal na sua busca de combater a miséria vem adotando políticas para universalizar o acesso do carro à maioria da população. É claro que os mais pobres ainda não chegaram lá, mas hoje boa parte da classe média dispõe deste símbolo de acessão social na sua garagem. Pode não estar totalmente pago. Mas está lá.

Ninguém nega que o carro é um conforto interessante como meio de deslocamento a grandes distâncias e em momentos especiais da vida das pessoas. Assim como ninguém nega que o grande número deles pelas ruas tem transformado a vida das pessoas num grande caos. Especialmente nos horários de pique quando em qualquer cidade de médio porte se perde horas parados em engarrafamentos monumentais.

Por conta disto se gastam milhões de reais em obras enormes como, estradas, viadutos, duplicações, túneis e coisas do gênero, para tentar desesperadamente acelerar o trânsito desta multidão de veículos quase sempre transportando um único passageiro.

Na prática o que maioria destas obras consegue, além de estourar os orçamentos públicos, é deslocar para um pouco mais adiante o ponto de maior engarrafamento sem solucionar a confusão. Hoje em São Paulo a velocidade média de deslocamento das pessoas em carros é de cerca de 8 km por hora. A mesma de uma carroça no século XIX. Na BR 116 não é raro alguém levar 2 horas para vencer os 40 km que separam NH de Porto Alegre. Trecho que respeitando os limites de velocidade da via pode ser cumprindo em 30 minutos.

Por conta disto os ecologistas entendem que devemos inverter a lógica se queremos ter cidades onde se possa andar com conforto e velocidade e sem a imensa poluição provocada pelo uso massivo de carros. Ele tem que sair do centro da cena.

A primeira medida de impacto para alcançar isto seria introduzir transporte coletivo com intervalos de no máximo 15 minutos a um custo de no máximo R$ 0,50 centavos por passageiro em veículo confortáveis das seis da manhã até as 23 horas. Em especial nos deslocamentos para o centro da cidade. Um ônibus ocupa o lugar de 3 carros e transporta a população de 10 carros lotados. Veja o espaço que sobra. A fonte para cobrir a diferença de custo poderia vir de um imposto sobre o uso de combustíveis fósseis. Isto ajudaria a reduzir seu consumo e, por tabela, o impacto ambiental de seu uso. Um exemplo de que isto é possível é o trensurb que tem mais de 50 % de seu custo subsidiado e que transportam mais de 200 mil pessoas por dia na região metropolita. Imaginem este povo todo em carros.

O uso de trens em grandes cidades seria outro ponto desta estratégia com articulador do transporte via ônibus. Se a prioridade para obras para viabilizar o carro como principal meio de transporte fosse revista é possível que o trensurb já estivesse na serra e tivéssemos outras linhas na região com o mesmo investimento.

Para quem não gosta de ônibus ou trem o serviço pode ser completado por uma frota de lotações. Além disto se deveria ter uma frota de táxis com custo reduzido para fazer o transporte das pessoas com limitações de locomoção que necessita de mais cuidado no deslocamento.

Outra estratégia radical seria obrigar todos os prédios de trabalho a ter local para guardar bicicletas e um vestiário com armário e chuveiro. Isto aumentaria o uso deste veículo que não polui, ocupa pouco espaço e ainda ajuda na saúde de quem o usa. Com mais bicicletas nas vias diminui um monte o engarrafamento.

Tirando os carros sobraria mais espaço nas ruas e não se precisaria gastar mais recursos com obras para viabilizar o transporte por carros. Também sobraria mais espaço nas cidades para áreas verdes e não se precisariam cobrir arroios e derrubar prédios antigos e árvores de grande porte para alargar avenidas ou mesmo construir via de uso de transporte coletivo.

O ar seria mais limpo e haveria menos barulho e o carro individual ficaria mais para uso em fins de semana ou deslocamentos na madrugada.

São medidas simples, mas possíveis se mudarmos a lógica da nossa sociedade. Talvez ainda demorem a serem aceitas e seja preciso engarrafamentos maiores ainda para convencer ama maioria. Mas um dia as pessoas entenderão o uso de carros como principal opção de deslocamento nas cidades terá que ser repensado antes que todos fiquemos presos na saída das nossas garagens.

especial para o jornal do Roessler

 

Arno Kayser

Agrônomo, ecologista e escritor

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