Entrevista para a Revista Negócios na Cidade, de Novo Hamburgo dezembro de 2012

Para a Jornalista Beatriz Franken

 

1.   O que é, efetivamente, a economia sustentável. O que a sociedade, os organizações – empresariais, institucionais – e também o PODER PÚBLICO precisam fazer para colocar a sociedade no caminho da sustentabilidade?

Sustentabilidade é um conceito ainda em disputa. É uma idéia que vem sendo colocada como oriunda da ecologia, mas de fato provém da teoria econômica. A economia sustentável seria aquela que procurasse garantir a reprodução atual dos processos econômicos sem prejudicar sua reprodução no futuro.

Mas sem uma complementaridade da visão social e ecológica ela não consegue alcançar de fato estes objetivos, pois a produção econômica tem seus limites em fatores impostos pelo meio ambiente e também pelos fatores sociais para além do processo econômico.

A sustentabilidade de fato tem que harmonizar o processo econômico, a natureza e o ser humano. Do contrário é só um discurso vazio que esconder a natureza exploratória e destruidora dos processos econômicos atuais.

Para avançar no sentido de uma sustentabilidade ecológica deveríamos começar a fazer um amplo debate sobre o que queremos produzir. E de que forma.

É preciso questionar a produção de bens de luxo para uma minoria que suga todo o planeta em nome do lucro que isto produz e buscar uma produção destinada a satisfazer as necessidades básicas de todos os seres. Além dos humanos temos que pensar na continuidade da vida de todos os seres com os quais dividimos o planeta. As bases da vida que nos sustentam estão centradas na perpetuação da reprodução de todos as forma de vida. A natureza pode nos indicar modelos para inspirar este processo.

A forma de produzir teria que operar em ciclos fechados com os ciclos da natureza com o máximo possível de aproveitamento de energia e matéria e sem a geração de resíduos para o meio ambiente.

Isto representa uma mudança de paradigma que talvez muitos resistam ou não entendam. Mas que precisa ser feita sob pena de destruir as bases mais importantes da nossa existência.

2. O universo corporativo em geral está longe de adotar práticas sustentáveis: é um caminho longo a percorrer, que passa inclusive por mudanças culturais. Há iniciativas pontuais, programas aqui, programas ali, segundos A, B, C, uns mais, outros menos. É possível medir o retorno das práticas sustentáveis nas organizações? Existe alguma pesquisa indicando isso, ou apontando analogias? ( Não é algo como uma simples operação matemática, como dois mais dois são quatro), mas penso que existem indicadores apontando ganhos, a partir de exemplos efetivos. Existem???

Como medir isso?

Ainda vivemos o mito de que para superar os problemas atuais precisamos de mais atividade econômica, quando o que o mundo precisa é de uma distribuição mais justa da riqueza. O PIB mundial é suficiente para proporcionar uma boa renda para todos se justamente dividido. Temos comida para todos os seres humanos. A fome é conseqüência da má distribuição do alimento.

A implantação de práticas sustentáveis é uma grande mudança cultural que reorienta o objetivo da produção econômica da busca do lucro para o compromisso de atender, com qualidade, as necessidades básicas de todos os seres humanos sem comprometer as bases do equilíbrio ecológico ou a reprodução de culturas humanas.

Neste sentido a busca da sustentabilidade não pode ser vista como um programa ou departamento da corporação, mas um dos eixos da própria existência da empresa.

Os indicadores para se avaliar o progresso neste sentido devem ser buscando não apenas em índices como o PIB que dão apenas idéia da movimentação econômica, mas numa composição de dados que registrem também a evolução da sociedade, como, por exemplo, expectativa de vida, grau de instrução da população e renda per capita, combinados com informações ambientais como qualidade de águas e do ar, ou porcentagem de áreas naturais de um território.

É um debate que já vem sendo tratado em alguns fóruns, mas ainda não tenho conhecimento de que tenha surgido uma formula que integre tais variáveis. Seria uma espécie de índice de felicidade bruta, como o defendido pelo governo do Butão, para todos os seres vivos do planeta.

3.No Vale dos Sinos que iniciativas, mesmo que pontuais, são merecedoras de destaque, até para servir de modelos, ou incentivos para a sociedade, ou para quem ainda vê a sustentabilidade como gasto, despesas, custo, ou ainda vê nisso algo distante, fora de seu alcance… Falo de empresas, organizações, corporações, municipalidade…

Creio que o Vale do Sinos vive um momento curioso. Há um refluxo decorrente da perda da riqueza fácil que o calçado proporcionava. O que se configura como uma oportunidade para se refazer as bases da nossa economia, buscado alternativas de mercados e de geração de renda.

Paralelo há um grande debate sobre os limites naturais da região centrado na questão dos conflitos pela água.

Além disto, vivemos um desafio de sanar os problemas sociais decorrentes da grande população que migrou em buscou emprego na região e hoje sofre por estar morando em sub habitações, muitas vezes colocadas em áreas de risco e territórios contaminadas pela criminalidade.

Ainda há uma crise decorrente do estrangulamento de algumas infraestruturas da região. Em particular a questão da mobilidade urbana, mas também a falta de saneamento, moradia e atendimento de saúde para a população mais pobre

Por enquanto estes debates ainda estão separados. Mas se conseguirmos integrar todos eles numa grande matriz lógica comum talvez encontremos uma formula de reinventar a região mobilizando atores públicos e privados na construção de um processo sustentável para a região.

Em minha opinião a liderança deste processo deve partir das universidades, mas não pode prescindir dos agentes políticos e comunitários que atuam na nossa região.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

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