A Sociedade de Consumo e o Modelo de Desenvolvimento

A crise ambiental, em particular as mudanças climáticas, é o produto do funcionamento normal do nosso modelo de desenvolvimento. Diferente de outros problemas ambientais do passado não é fruto de acidentes ou desvios comportamentais como a poluição de uma fábrica, um derrame de petróleo ou a morte de animais ou plantas raras. É o resultado do funcionamento da máquina como ela foi concebida.

A questão de fundo é o modelo de sociedade. Modelo que é movido, principalmente, por combustíveis fósseis e mega projetos de geração de energia combinados com produtos artificiais de difícil absorção pelos ciclos naturais e mecanismos lineares de produção de bens. Modelo que busca o crescimento econômico ilimitado num planeta sabidamente limitado.

Para agravar o processo os recursos humanos, materiais e tecnológicos não tem sido usados para promover um desenvolvimento ecologicamente sustentável para todos os seres.

O foco tem sido promover um modelo de consumo de luxo para pequenas partes da humanidade em detrimento do sacrifício da maior parte da humanidade e o sofrimento da maioria das demais formas vivas.

Modelo de sociedade que é propagandeado e legitimando por uma eficiente máquina de propaganda ideológica calcada na manipulação de desejos e instintos básicos de caráter narcisista e hedonista.

A maior parte dos produtos simbólicos deste processo é produzida dentro de estratégias de Obsolescência planejada para gerar novas ondas de consumo e que criam montanhas de produtos que rapidamente ficam ultrapassados e tem que ser descartados. A dianteira glamorosa deste processo, hoje em dia, são as novidades-necessidades eletrônicas de comunicação digital instantânea e as do universo das  celebridades com sua vida de luxo ocioso.

Neste modelo de sociedade o principal parâmetro para avaliação e tomada de decisão quanto aos rumos do desenvolvimento é o econômico. Particularmente a geração de lucro para empreendedores e acionistas. Há uma fé muito grande de que a solução de todas as crises atuais se dê com mais crescimento econômico, porém com um redirecionamento “verde“ na sua condução. Nem de longe se aceita a necessidade de mudar o modelo.

Como conseqüência, vivemos um boom de produtos ditos ecológicos. A palavra sustentabilidade, outra idéia econômica, é repetida como um mantra salvador por políticos, intelectuais e dirigentes empresariais. Até na política partidária temos o “verde“ com a via alternativa para solucionar as crises políticas mundo afora.

Na base desta sociedade de consumo e deste modelo de desenvolvimento temos uma cultura que parte do pressuposto de que não somos parte da natureza. Somos como cosmonautas de passagem numa expedição predatória dos recursos do planeta.

O que se manifesta numa cultura competitiva, machista e tecnologicamente cada vez mais acelerada. O que se expressa em vários processos violentos.

A agricultura luta contra a natureza. A medicina luta contra as doenças. A paz é garantida com grandes exércitos e guerras pontuais regulares.  O espelho desta sociedade competitiva é o tráfico de drogas, armas, pessoas e animais e plantas. Já os movimentos sociais de resistência são considerados criminosos ou terroristas.

As pessoas trabalham horas e horas sem ter tempo para relações sociais saudáveis com amigos, filhos e familiares. Tampouco há tempo para hábitos saudáveis. A alimentação é agressiva ao organismo das pessoas sendo baseada em produtos industrializados de má qualidade que se conservam e ficam palatáveis pelo largo emprego de especiarias artificiais geradoras de doenças. O ciclo se completa com o descarte de produtos tóxicos no meio ambiente

A prioridade é ter recursos econômicos para seguir movendo a roda de consumo. No caso de uma crise a prioridade não é salvar a vida economia das pessoas pela garantia de emprego, renda ou aposentadoria, mas sim salvar o sistema financeiro e garantir a renda dos grandes investidores do mercado.

Esta cultura se completa num desprezo enorme pela solidariedade, cooperação, justiça e direitos humanos. Também há um desprezo pela universalização dos direitos à alimentação, saúde, educação, moradia digna, livre manifestação cultural e ideológica, renda mínima, saneamento, segurança e soberania.

Também há um desprezo por soluções tecnológicas simples inspiradas nos ciclos naturais

Este desprezo também se extende a toda espécie de necessidade ou prática espiritual que resulte em questionamento moral e ético ao modelo de sociedade. Também despreza o preenchimento interno que possa advir destas práticas e que diminua o ritmo de consumo pessoal de seus praticantes.

Ela também desconsidera as necessidades e direito a existência de todas as formas de vida do planeta a menos que se possa auferir renda ou construir uma imagem positiva perante os consumidores com a sua proteção. Isto desde que estas formas de vida se contente em permanecer restritas às áreas marginais do planeta e não atrapalhem a exploração de recursos e a produção de riquezas econômicas

O grande valor é a liberdade propiciada pelo consumo. Ela é vendida como o sonho ideal que justifica todas as coisas que caracterizam o modelo de desenvolvimento.

Esquecendo que a velha equação moderna que diz que igualdade mais solidariedade é igual a verdadeira liberdade.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

Novembro 2012

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Comentários

  • Débora Pereira  On 21/11/2012 at 10:19

    Bom dia Arno,
    Seu site foi mapeado como um importante ator na rede que monitoro em minha pesquisa de doutorado “As redes ambientais na internet e a gestão da natureza”, da Escola da Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil.
    Será que você pode fazer a gentileza de responder a este breve questionário online? https://www.surveymonkey.com/s/YS7NSFP
    Sua participação é muito importante para minha pesquisa, agradeço de antemão e posso esclarecer qualquer dúvida se precisar.
    Atenciosamente,
    Débora de Carvalho Pereira
    deborapereira.blog.br
    debcarpe@gmail.com

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