COMIDA NO LIXO

 Estarrecedor o dado levantado pela Secretaria de Meio Ambiente de Novo Hamburgo. Segundo pesquisa feita no lixo nosso de cada dia, cada um de nós deposita oitenta e dois quilos de alimentos por ano. São algo em torno de 225 gramas por dia. Praticamente uma refeição leve por dia é posta fora.

A população toda joga fora algo em torno de 54 toneladas por dia. O que daria para alimentar 70 mil pessoas. O que é uma informação apavorante quando lembramos que muitos cidadões desta terra passam fome ou precisam recorrer à programas sociais para garantir uma alimentação mínima. Algo escandaloso num mundo em que a fome e a desnutrição ainda são uma triste realidade. Números que comprovam que a fome não é um problema de produção, como querem nos fazer crer algumas multinacionais do agro-negócio, mas um problema de distribuição e desperdício.

Devemos lembrar que os dados de Novo Hamburgo dizem respeito a comida que chega na nossa mesa. Antes disto já há perdas na colheita, armazenagem, distribuição e processamento do alimento. Perdas que caracterizam uma cultura de desperdício e do consumo que movimenta e interessa as corporações que mandam no comércio de alimentos no mundo.

Quanto mais manipulação do alimento maiores são as perdas inerentes ao processo. Só que mais dinheiro é movimentado. Mais lucro é gerado, O que é mais importante nesta lógica do que alimentar pessoas. É esta mesma máquina que manipula nossos instintos, carências e emoções para nos induzir a compra de muito mais comida (e outras coisas) além da nossa necessidade básica. Comida que levamos para nossa casa porque nos é oferecido por propaganda, luzes coloridas e supermercados cientificamente planejados para nos fazerem compulsivamente.

Fenômeno que, além do desperdício, também contribui para o aumento dos índices de obesidade que cada vez mais caracterizam os que tem dinheiro para consumir. É esta a máquina compulsiva que se revela quando contemplamos os dados do desperdício de comida e tantos outras matérias primas que se acumulam nos nossos lixões.

Além do problema do desperdício e da fome, esta comida só aumenta nossos problemas ambientais e custa duas vezes no nosso bolso. Uma quando compramos a mais e outra quando pagamos pela coleta do desperdiçado. Quem fica contente são as coletoras de lixo que recebem por peso coletado. As 54 toneladas representam pelo menos uns dez caminhões de lixo que circulam na cidade gerando confusões no trânsito, poluição sonora e do ar e custos para todos.

Estes absurdos todos nos deveriam fazer pensar porque deixamos isto acontecer. Por quê não refletimos naquele momento glorioso da nossa sociedade que é o da compra se realmente precisamos levar tanta coisa para casa? Não seriamos mais felizes com um mínimo de contenção nesta hora? Contenção que nos ajudaria a economizar, que faria bem ao nosso corpo e que diminuiria a culpa pelo desperdício em que estamos nos afogando.

Pensem bem. São dez caminhões de lixo por dia, um prato por pessoa, milhares de famintos que estamos pondo fora porque nos deixamos levar pelos truques desta máquina de gerar desperdício que é a sociedade de consumo.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

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