A RESPEITO DOS DESERTOS

                   

             Quem já percorreu um deserto natural sabe que, ao contrário do conceito clássico, os desertos são  ecossistemas muito interessantes e cheios de formas de vida muito peculiares. Basta lembrarmos da fantástica família  dos cactos para vermos que eles abrigam uma gama complexa de vida adaptada a um regime hídrico de escassez. A imagem clássica de total ausência de vida é muito mais uma figura de retórica que se aplica muito melhor a ambientes totalmente degradados pela ação humana. No entanto na maioria das cabeças vale mais o conceito de vazio de vida do que de um ecossistema peculiar.

            Assim são muitas coisas na vida. Muita gente ainda acredita na idéia de que os ambientalistas são contra o progresso. Idéia fortemente alardeada por todos aqueles que nalgum momento da história foram alvo da crítica dos ecologistas. Na verdade o que os ecologistas criticam são formas de ação humana que a médio prazo podem destruir as bases de sobrevivência da civilização. O que a gente quer é um desenvolvimento econômico que respeite as leis da ecologia e não um sistema produtivo que venha a qualquer preço  destruindo tudo o que sustenta a vida na terra. Um desenvolvimento que trabalhe com a idéia de geração zero de resíduos. Que promova a biodiversidade e respeite a sociodiversidade do nosso meio. Um desenvolvimento que socialize a geração de renda e não promova a socialização das externalidades negativas do processo econômico como a poluição, os danos a saúde das pessoas ou a inflação.

            Está idéia de inimigos do progresso é muito forte, no entanto, e muita gente se deixa iludir com ela. Pensam que os ecologistas são contra a existência de fábricas por exemplo. A questão não é bem está. Somos contra fábricas que poluem e usem mal os recursos naturais. Nada temos contra que produz respeitando o meio ambiente. Nem contra quem gera emprego trabalhando nesta perspectiva. Mas geralmente quando atacamos grupos econômicos, por seus crimes ambientais, estes se defendem tentando se justificar com os empregos que geram. No caso dos curtumes assistimos esta novela nos anos 80. Hoje a maioria tem sistemas de tratamento de efluentes e ninguém fechou por isto, como diziam na época. Ao contrário. Muito técnico começou a trabalhar no trato dos efluentes. Muita matéria prima poluente foi reciclada gerando economia para as empresas e proteção a natureza.

            Nossa preocupação não é impedir a geração de empregos, mas garantir o cumprimento da legislação ambiental. O que em essência é preservar coisas fundamentais como a qualidade da água e áreas verdes. Coisas sem as quais não há futuro. Historicamente muitas leis naturais tem sido ignoradas e hoje milhões de pessoas tem trabalho mas não tem um ambiente saudável para viver(basta só lembrar das populações que vivem às margens dos nossos arroios em péssimas condições de vida).

            A verdade é que a crise que vivemos  é uma crise mundial de um sistema que só visa o lucro a qualquer preço e em que os trabalhadores e a natureza são vistos como meros recursos, sem valor em si,  a serem usados no processo de acumulação de capital. Os grandes grupos econômicos não estão nem ai para as pessoas pois eles não tem pátria ou compromisso com o futuro coletivo de ninguém. Só com o deles. E se a gente não se cuidar no futuro poderemos ter até muitos postos de trabalho. Mas não teremos mais coisas essenciais como água limpa, por exemplo. Nós não queremos este tipo de desenvolvimento. Queremos um mundo em que as pessoas possam trabalhar e vivam num ambiente sadio pois isto é que é o essencial para termos a verdadeira felicidade.

 

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

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