A lenda das torres gigantes

Era uma região de grandes ventos e tempestades. O povo dali vivia em casas construídas junto ao solo para evitar os efeitos tremendos. Mas a região começou a ficar muito rica, graças ao plantio de lavouras de exportação. Estas avançavam, a cada ano, por cima das terras selvagens, cuja existência amenizava a força de raios e tempestades.

Os comerciantes, mais espertos, ficaram ricos e, para ostentar esta riqueza, começaram a construir grandes torres no alto de suas casas. Dali poderiam observar melhor as suas plantações. Era o que diziam para justificar tais empreendimentos.

Com o tempo, as torres foram ficando cada vez maiores e mais ousadas. Algumas pessoas mais sensatas reclamavam daquele processo maluco. Mas, como ele gerava muito emprego e projetava a região, a maioria achava tudo muito bom. Com a expansão das lavouras, as tempestades e ventos ficaram mais fortes, pois não tinham mais a vegetação nativa para amenizá-las. Além disso, para ganhar mais dinheiro, o povo começou a deixar de plantar alimentos para dar lugar às plantas de exportação.

A vida foi ficando cada vez mais cara, pois dependia de coisas compradas de muito longe. Isso levava a aumentar a expansão das lavouras de exportação e a destruição das áreas selvagens. Um processo que crescia na proporção que se agigantavam as torres. A região começou a atrair gente em busca de riqueza. E também ladrões. Morar no alto das torres passou a ser visto como necessidade de segurança. O que fez com que elas ficassem cada vez mais altas e caras. As tempestades também ganharam mais força. Os mais velhos comentavam que, no passado, elas eram mais brandas e seus estragos menores.

Um dia, uma grande tempestade se armou no horizonte. Com fortes raios e ventos, avançou sobre a cidade. Um raio atingiu a torre mais alta. O vento espalhou suas pedras em todas as direções, atingindo as torres mais baixas. Novos raios e ventos acabaram por destruir todas elas. Foi uma tragédia horrível. Somente sobreviveram as pessoas que conseguiram fugir para as antigas partes baixas das casas. Foram as únicas edificações que permaneceram de pé. O vento e a chuva também atingiram as zonas plantadas, o que levou ao abandono de várias delas. Com o tempo, voltaram a recuperar a vegetação selvagem que existia antes da loucura das torres e a paisagem voltou a ser como o fora por séculos, antes deste período.

Os sobreviventes resolveram nunca mais construir torres gigantes e nem se dedicar somente ao plantio de exportação. Voltaram a cultivar alimentos para o consumo próprio e a depender menos de coisas importadas. Também resolveram não interferiram no retorno das plantas selvagens.  As tempestades voltaram ao ritmo dos primeiros tempos daquele povo.

Arno Kayser

Agrônomo, ecologista e escritor

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