COURO XVI

A dupla sertaneja animava a festa. O povo viera em grande número até a escola para assistir as atrações e tentar uma chance no show de talentos do bairro. Eles cantavam muito bem os sucessos dos grandes astros do rádio e da TV. Os chapéus, as jaquetas, os botões prateados, as calças e as botas eram tão bonitas como as de grandes artistas. O violão enfeitado com fitinhas de couro dava um toque local. A diretora da escola já agradecerá várias vezes ao poder público que financiava aquela festa. O chope grátis aumentava o entusiasmo do povo. Os aplausos saiam mais fáceis. O brilho de alegria se estampava em muitos olhos. Um momento de refresco na dura vida. Tempo de lembrar-se dos amigos longe. As antigas paixões e aventuras que as canções evocavam faziam a vida parecer menos difícil.

Tudo correu tranqüilo até o momento em que foi anunciada uma palavrinha do candidato da situação. Partidários da oposição começaram a vaiar. O sangue quente retesou os músculos. Cabos eleitorais desafiavam com o olhar os adversários. O candidato ainda tentou contemporizar. Mas a turma da oposição era numerosa. A vila estava esquecida à tempos pela atual administração. O discurso pegou como provocação. Quatro anos no ostracismo deixam marcas. Não demorou pro pau pegar solto. Tiveram que chamar a Brigada para apartar.

Arno Kayser  Agrônomo Ecologista e Escritor

Julho de 1992

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