CLIMA E ESTATÍSTICA

 

Estatística é uma arte curiosa. Pode-se provar qualquer coisa com ela. Depende do que usamos como referência. Este fato, que é uma decisão pessoal e parcial, permite que qualquer um prove o que lhe pareça, a priori a verdade mais acertada. E mesmo que ele creia estar agindo com neutralidade, de fato esta influindo na resposta de seu experimento, com esta opção inicial.

A temperatura média de um corpo humano é de 37ºC. Se ela baixar uns quatro graus o corpo entra num quadro de hipotermia e as conseqüências variam de sérias seqüelas nas extremidades do corpo até mesmo a morte, dependendo do tempo de duração do quadro.

Se esta mesma oscilação de quatro graus for para cima teremos uma febre que pode até matar o individuo ou, no mínimo, trazer grandes incômodos para a vida do paciente.

Podemos olhar esta variação da temperatura corporal que significa a diferença entre a vida saudável ou a doença e a morte tendo vários pontos de referência. Conforme mudar a referência nossa opinião pode variar deste um desdém até uma alarmismo catastrofista.

Se usarmos o intervalo do zero centígrado até a temperatura corporal como referência concluiremos que a variação é tremenda, pois supera os vinte por cento. Trata-se de um fenômeno que temos que dar muita atenção.

Já se compararmos a mesma oscilação partindo do zero absoluto do universo até a temperatura corporal a variação de oito graus seria de 2,5%. O que nos levaria a concluir que ser um fenômeno de pouca importância estatística para ser considerado como preocupante.

Já se levarmos como referência à oscilação térmica do sistema solar, que varia do zero absoluto até milhares de graus no centro do sol, oito graus é um dado irrelevante.

Mas nos três casos, para o paciente do fenômeno, tanto para mais como para menos, as conseqüências são as mesmas, independente dos tratamentos estatísticos escolhidos pelo observador do sofrimento alheio.

Digo isto porque temos visto a mídia brasileira começar a dar ouvidos aos climatologistas que defendem a tese do esfriamento global que estaria vindo. Eles são os mesmos que sustentaram cientificamente a política climática do senhor Bush e que se opõem à idéia do aquecimento global que predomina nos debates mundiais mais recentes.

Estes cientistas se baseiam em registros climáticos das últimas décadas que informam de ciclos de aquecimento e resfriamento do clima para afirmar que estamos por entrar ou até já teríamos entrado, num período de trinta anos de resfriamento nas regiões temperadas e polares. A luz dos dados estatísticos que eles usam sua lógica é defensável.

Já os climatologistas que apontam a tendência ao aquecimento falam de temperaturas altas extremas, ocorridas na última década, nunca antes registradas, além do derretimento de massas de gelo glacial e, principalmente, nos registros de alterações da quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera.

Estes últimos são dados obtidos em perfurações no gelo glacial que contém amostras da composição gasosa da atmosfera de centenas de milhares de anos atrás. Estes apontam que os altos níveis destes gases, dos nossos dias, nunca antes foram registrados no passado. Estes incrementos vieram depois da revolução industrial que popularizou o uso de combustíveis fósseis.

Os climatologistas do resfriamento nada dizem quanto ao aquecimento recente. Ele contraria suas projeções de um resfriamento que já vem sendo difundidas, no meio cientifico, desde os anos setenta, diga-se de passagem, e que deveriam ter começado no fim dos anos noventa.

Mas com relação à questão dos gases estufa dizem que na dinâmica do carbono no planeta os fenômenos não humanos movimentam bilhões de toneladas entrando e saindo da atmosfera todos os anos, enquanto as emissões humanas andam na ordem dos milhões de toneladas. Fato este verdadeiro em si.

Por serem dados estatísticos tão insignificantes em relação à movimentação total, defendem que reduzir emissões é bobagem e criticam os leigos, políticos e empresários dizendo que ninguém entende de clima e que tudo não passa de uma guerra econômica e política para manter a divisão de ricos e pobres no planeta.

Tudo isto para defender que podemos continuar usando combustíveis fósseis sem problema. No máximo admitindo a contribuição destes para a poluição das cidades. Poluição que pode ser, segundo eles, controlada por tecnologias que combatam seu efeito. Mas que não há problema de gás carbônico no ar. Chega a afirmar que ele é o “gás da vida” e não o vilão ambiental que os oponentes pinta. Que sem ele não há vida na Terra.

Afirmação que é verdade em si, mas esconde outros fatos que determinam a vida. O gás carbônico é fundamental para que ocorra a fotossíntese nas plantas. Mas seu teor é muito homogêneo em quase todos os cantos do planeta. Na verdade a vida vegetal se diversifica muito em função da variação de outros fatores atmosféricos, como umidade, temperatura, insolação e ventos. Variações que explicam a ocorrência de florestas, estepes, desertos, tundra e outros ambientes por aí afora e não o nível de gás carbônico de cada local.

Ao xingar seus rivais, leigos ou não, de lobistas de outros interesses de uma guerra geopolítica e comercial mostram que também estão nesta guerra do lado da indústria baseada em combustível fóssil.

É claro que há uma guerra geopolítica permanente no mundo. Políticos e empresários tem seus interesses particulares e nem sempre estão preocupados de fato com o meio ambiente.

Mas isto não significa que não devemos nos preocupar, pois o planeta está passando por mudanças climáticas de fato. (Diga-se de passagem, que a única imprensa que fala em aquecimento global é a brasileira. O resto do mundo fala, a anos, de “Clima Changes”. O que pode explicar a confusão e o espaço midiático momentânea para o esfria versus esquenta. Mas isto é outro papo).

Se vai esfriar ou esquentar é o de menos. Como no caso do corpo humano tanto a hipotermia como a febre do planeta podem gerar dor, sofrimento e morte. Do mesmo modo a contribuição humana de emissões de gases estufa pode ser pouca à luz da referência estatística de uma comparação com a dinâmica da biomassa do planeta.

Mas se estatisticamente ela é pouca significativa, na prática ele pode ter o mesmo impacto na saúde do planeta que uns poucos graus têm no corpo humano. Nenhum médico vai justificar com estatísticas à omissão de cuidados médicos a um quadro de febre ou hipotermia. Ele vai é agir e depois discutir o que causou o problema. A gente deveria seguir esta postura também. Mas a prática global tem sido diferente. Primeiro discute depois, talvez, age (isto se o outro começar primeiro).

Está certo que em nome do princípio maior da filosofia da ciência que se move na busca da verdade a partir da comprovação experimental devemos continuar a ouvir os climatologistas do resfriamento. Eles podem estar certos.

Mas devemos ouvir questionando-os sempre. Em primeiro lugar perguntando de onde vem os recursos de suas pesquisas e a que correntes políticas e econômicas se filiam. Em segundo lugar questionando suas bases de dados em relação às bases de dados dos defensores do aquecimento global.

Mas, talvez principalmente, perguntando qual a razão de a vida ter fossilizado lentamente, bilhões de toneladas de carbono, ao longo de milhões anos no passado. Certamente ela tinha um bom motivo para isto em sua estratégia de sobrevivência. Será que podemos ou não reverter esta estratégia queimando todo este carbono fóssil na velocidade em que o fazemos hoje, sem por algo em risco, é uma boa questão para se pensar.

E, na ecologia, como no trânsito, na dúvida é melhor não ultrapassar certos limites se queremos continuar vivendo. Portanto menos emissões, por favor, e mais fixação de gás carbônico também.

Enquanto isto continuem atentos e com o cérebro ligado questionando toda a informação que receberem com liberdade de pensamento. Esta ginástica pode manter ele vivo e nos protegendo das “verdades estatisticamente comprovadas” que nos chegam todos os dias de diferentes pontos de vista ou interesses dos mais diversos.

A história já provou que é da cuca humana que vem às soluções de todos os problemas que o comportamento humano inadequado gerou para o equilíbrio do planeta.

 Arno Kayser

Agrônomo, escritor e ecologista.

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