A EVOLUÇÃO DA VISÃO ECOLÓGICA

A ecologia é, hoje, um dos temas mais importantes nos debates no nosso mundo. Um verdadeiro fenômeno social contemporâneo que é parte ativa das grandes discussões, que estão na vanguarda da crítica ao modelo de sociedade que temos e sua relação com as bases de suporte da vida no planeta. A visão ambiental é um tema transversal que se manifesta desde o processo de desenvolvimento tecnológico até as formas de educação formal e informal. Aparece tanto na questão da agricultura quanto no planejamento urbano e regional. Também dá seus pitacos nas questões de saúde, saneamento e alimentação. Aparece quando discutimos as questões do clima, da perda da biodiversidade natural e na necessidade de protegermos animais, plantas e ecossistemas. Também serve de base para a critica de um modelo de sociedade de consumo que esbanja recursos naturais e produz resíduos que poluem o solo, as águas e o ar. Também é parte de uma crítica à destruição das culturas tradicionais e a busca de uma ética das relações entre diferentes grupos humanos e seu direito a vida e a plena manifestação cultural de seus elementos de identidade. A ecologia aparece até como tema motor de uma busca de uma nova espiritualidade que conjugue os anseios e dúvidas mais íntimas de cada um com a busca de uma relação fraterna com os semelhantes e as demais formas de vida existentes. Esforço que busca uma reconecção com o caracter sagrado da natureza, característico de várias tradições culturais com a visão de mundo, que a ciência mais sofisticada dos nossos dias nos trás. Gostemos ou não é uma questão que veio para ficar e que cada vez faz mais parte de nossas vidas.

Mas isto nem sempre foi assim. Até pouco tempo atrás a ecologia era uma ciência modesta. Alvo de interesse de uns poucos iniciados. Enquanto ciência foi proposta em 1857 pelo naturalista Ernest Haeckel, contemporâneo de Darwin e Linneu e outros grandes cientistas do século XIX empenhados em dar às ciências naturais o mesmo status cientifico conquistado pela Física, no século XVIII. A proposta de Haeckel era estudar as relações entre os seres vivos e seu meio buscando compreender as vinculações entre os ciclos bio-geo-químicos e os seres vivos de um determinado sistema natural. Algo que, a princípio, interessava a muito pouca gente.

Qual seria a razão que levou está jovem ciência, em pouco mais de século e meio, a estar no centro dos grandes debates mundiais? Porque razões ela seria tema de três conferências globais reunindo dirigentes de todas as nações e um número imenso de organizações da sociedade de vários matizes, filosofias e propostas de ação?

Em parte a resposta está relacionada com o que vem acontecendo com o planeta a partir do advento da revolução industrial e da explosão demográfica, além do avanço da compreensão cientifica do mundo, dos meios de comunicação de massa e dos avanços na participação cidadã em todo o mundo.

Até o início da revolução industrial o impacto das ações humanas e a capacidade de gerar grandes modificações ambientais era muito menor que a capacidade de absorção da natureza. A capacidade homeostática de manter o equilíbrio natural era muito maior que a ação antrópica. Tanto que a visão cartesiana da época defendia claramente a dominação da natureza por meio da tecnologia sem se preocupar com os reflexos desta ação no meio. Os espaços urbanos eram pequenos e o impacto dos resíduos, que as cidades de então geravam, era muito menores que a capacidade de autodepuração do solo e das águas aonde eram lançados. Além disto a população humana era pequena e sobravam grandes espaços aonde a vida selvagem e os mecanismos naturais de equilíbrio ocorriam sem maiores impactos humanos.

Com a revolução industrial isto se modificou. Aos poucos a tecnologia humana foi aumentando a capacidade de impacto sobre a terra. Uma estimativa do Professor Fensterseifer da Unisinos aponta que no século XX o ser humano movimentou um volume de massa semelhante ao que as forças geológicas fizeram no último milhão de anos. A mão humana é dez mil vezes mais forte e rápida que todos os terremotos, maremotos, vulcões, chuvas e ventos. Fato que tem seu impacto sobre os ciclos naturais cada vez mais sentido. Some-se a isto que a criatividade humana vem se dedicando cada vez mais a geração de substâncias inexistentes na Terra e contra os quais ela não tem “tecnologia” de depuração. O que somado ao aumento de resíduos jogados, sem tratamento, no meio ambiente, por populações cada vez maiores, explica a crise ambiental que se manifesta mesmo nos mais distantes rincões.

A reação a este processo começou quase que junto com a revolução industrial. Já no século XVIII começa, na Europa e EUA, a valorização da vida no campo em contraposição ao caos urbano dos centros industrializados. Típica do romantismo esta reação foi iniciada por vários autores daqueles tempos. Entre eles Goethe e Thoureau. Mais adiante os socialistas utópicos começaram a propor sociedades ideais, em torno de territórios, aonde se praticasse o respeito a terra e aos seres vivos. Também os relatos antropológicos dos viajantes do século XIX, que descreviam povos vivendo uma relação de respeito em meio a uma natureza exuberante, contribuíram na formação de uma cultura de valorização da vida selvagem. É desta época a famosa carta do cacique Seatle que, em resposta a proposta do presidente americano de compra das terras indígenas, manifesta um dos mais difundidos resumos da visão indígena da relação com a natureza. Surgiram os primeiros clubes de caminhantes e observadores da vida selvagem. Gente que começou a se revoltar contra o processo de degradação natural e a propor a criação das primeiras reservas e parques naturais do planeta. O primeiro, criado em Yellowstone, foi uma resposta ao massacre dos bisões americanos que os caçadores brancos promoveram nas pradarias disparando dos trens em marcha para o oeste.

Esta vertente conservacionista, que partia do princípio de que para salvar a natureza era preciso afastar o homem dela, criou muita força no mundo e criou a primeira geração de entidades preservacionistas. Entre elas a World Wildlife Fundacion(WWF) da Inglaterra e a Fundação Brasileira de Conservação da Natureza. O trabalho desta gente se voltou à preservação dos animais em extinção e a preservação de grandes parques selvagens, no mundo todo, a partir dos estudos de eméritos naturalistas. Grande impulso a este trabalho é o livro “Antes que a natureza morra” de Jean Dorst e os documentários da Nacional Geografic, já no século XX.

Mas o século XX também trouxe uma série de novos fatos que deixaram claro que não bastava só isto para salvar a vida na Terra. Novas tecnologias começaram a pesar na balança. Em especial inovações da indústria química e do petróleo e os artefatos bélicos baseados no átomo. Ambas responsáveis por alguns dos piores artefatos da história da humanidade. A indústria química trouxe uma série de produtos, derivados da química orgânica, que não existem na Terra. Os piores foram os gases usados como armas químicas nas guerras mundiais. Depois de matarem milhares de soldados e população civil eles foram convertidos em agrotóxicos e difundidos no mundo pela revolução verde. Por sua persistência ambiental e capacidade de bioacumulação eles foram cada vez mais letal. Canceres, infertilidade e doenças degenerativas ou teratogênicas foram surgindo na sua esteira. O DDT foi achado até na gordura dos ursos do Ártico. A denúncia deste mal resultou num dos mais célebres livros ecologistas do planeta. Nos anos 60, Rachel Carson publicou “Primavera Silenciosa”. Um relato dos efeitos dos agrotóxicos na vida selvagem e no ser humano que motivou amplas campanhas de mobilização popular contra seu uso na agricultura. Já o desenvolvimento da bomba atômica, que o mundo conheceu em todo o seu horror em 1945, no Japão, pôs a humanidade em estado de alerta. Nunca um artefato humano assustou tanto por seu poderio de fogo. A corrida armamentista da guerra fria só aumentou este temor. Em todo mundo personalidades famosas e movimentos organizados começaram a pedir o seu fim. Fenômeno que ganhou força com os movimentos pacifistas contra as guerras na Coréia e Vietnã.

Outro elemento que se somou a este caldo de questionamento social foi a publicação do relatório ”Os limites do crescimento”. Extenso estudo, patrocinados pela ONU, a partir de um esforço de especialistas reunidos no chamado “Clube de Roma”, procurou calcular o tempo de duração dos principais recursos naturais, a continuar o ritmo de crescimento da civilização e seu padrão de consumo. Ao mesmo tempo as primeiras fotos da Terra, feitas, do espaço, pelos cosmonautas, revelaram ao mundo uma imagem de um pequeno planeta perdido no imenso cosmos. Nossa única morada no Universo.

Todos estes fatos somados causaram grande impacto na opinião pública graças a massificação das informações, através dos avanços da mídia via satélite, que começaram a criar a “aldeia global”. Surge um forte movimento ecologista em todo o planeta denunciando, aos quadro cantos, os efeitos locais da poluição, devastação de ecossistemas e as ameaças da guerra. Os antigos grupos de amantes da natureza se transformaram num movimento combativo com uma criativa intervenção na construção da consciência ecológica. O lema ”pensamento global e ação local” ganhou uma força incrível. Atraem pessoas de várias gerações e se transformam num fato comportamental marcante. Algumas de suas lideranças atinge o status de celebridades internacionais como Jaques Cousteau e José Lutzenberger.

Aqui no Brasil não foi diferentes. Já no ano de 1939 o leopoldense Henrique Roessler consegue autorização do Ministério da Agricultura para atuar como delegado de caça e pesca voluntário. Inicia um trabalho intenso de fiscalização e educação ambiental. Mais tarde perseguido por industriais poderosos perde o poder legal e cria, com seus colaboradores, a UPN em 1955. Primeira entidade ecologista do pais, anterior a FBCN, que surgiu em 1958 no Rio de Janeiro. Roessler passa também a escrever artigos para o Correio do Povo. Textos que influenciaram uma geração de seguidores que acabaram criando a AGAPAN cerca de oito anos depois da morte do pioneiro gaúcho. A entidade liderada por José Lutzenberger cria fama nacional e internacional deflagrando lutas contra os agrotóxicos, programa nuclear e pela preservação da Amazônia. A partir do Rio Grande do Sul surgem movimentos em outros estados brasileiros ao longo dos anos 70 e 80. Ao ponto de no início dos anos 90 serem registradas mais de 1500 entidades ecológicas no país com algo em torno de 50 mil membros, segundo estudo de Paduá e Pizzi.

No plano oficial a ONU reage chamando a primeira Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento, em Estocolmo, no ano de 1972. As denúncias lá apresentadas, sobre uma série de problemas ambientais, em vários locais, levam os governantes mundiais a criação de órgãos ambientais e programas de meio ambiente. No Brasil surge a SEMA no plano federal. A ela seguiram-se vários órgãos municipais e estaduais aglutinando entidades florestais, serviços de parques e controle da pesca. Estes esforços oficiais somados a pressão das entidades ecológicas fazem surgir várias leis em defesa da natureza como a lei dos agrotóxicos a lei da política nacional de meio ambiente e a criação do Conselho Nacional do Meio Ambiente.

Também nos anos 80 a ecologia começa a ganhar os bancos escolares com vários iniciativas de educação ambiental em cima dos problemas locais. O que vem formando toda uma geração de cidadãos com consciência ecológica. Ao mesmo tempo a ciência começa a demonstrar que, além dos problemas locais, há efeitos globais da degradação do meio ambiente. Tem especial destaque o problema das mudanças climáticas, a alteração da camada de ozônio e a perda da biodiversidade.

Esta visão e a manifestação da força das ONGs ecologistas, pacifistas, feministas e de defesa de minorias chega ao auge na segunda Conferência do Meio Ambiente da ONU realizada no Rio de Janeiro em 1992. A repercussão do evento é tamanha que leva a derrota eleitoral do Presidente Bush(o pai) por ser contrário aos seus propósitos. A partir dela a questão ambiental começa a se consolidar como tema essencial na agenda do planeta. Uma série de acordos internacionais como o Protocolo de Kyoto, a convenção de Biodiversidade e a agenda 21 são impulsionados a partir da força do evento. A ecologia ganha o cotidiano das pessoas de forma definitiva.

Mas é também a partir dos anos 90 que começa a reação a sua ascensão. Tendo como mentor a Organização Mundial do Comércio(OMC) inicia-se um processo de solapatação de sua característica mais virulenta e revolucionária. O movimento neoliberal consegue a criação da lei de patentes que garante o acesso da biodiversidade aos grandes grupos econômicos. Surgem os Organismos Geneticamente Modificados. Alienígenas, criados em laboratório para gerar lucros e concentração de poder econômico, cujos efeitos ambientais ainda não estão plenamente conhecidos. A indústria de consumo procura criar, através de certificações, um mercado verde para consumidores de alto padrão de renda. A luta contra o terrorismo e narcotráfico promove um novo impulso para a indústria bélica mundial. A crise econômica mundial rouba muitos militantes do movimento ecológico. O controle da mídia, por grandes blocos econômicos, tiram um dos seus instrumentos mais poderosos de difusão. Algumas lideranças são perseguidas e até mortas, como no caso do Chico Mendes. Os grupos petroleiros resistem ao protocolo de Kyoto, a partir do governo americano, para defender seus interesses econômicos.

Os ecologistas reagem criando uma série de coalizões locais e nacionais e mesmo mundiais. No RS temos a Apedema-RS. A nível nacional a Rede da Mata Atlântica, a Coalizão Rios Vivos e o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais. A nível internacional o Greenpeace e a Rede Amigos da Terra. Ao mesmo tempo os ecologistas buscam se unir a outros movimentos sociais como as organizações campesinas e a CUT que tem, hoje, na sua pauta a ecologia.

A luta contra a fome e a busca da inclusão social incorporou várias bandeiras ecológicas. O movimento social em torno do Fórum Social Mundial também tem sua vertente ecologista buscando a implementação do desenvolvimento sustentável já proposto em 1972.

Também a teologia se abre para a questão ecológica. A partir do trabalho de Leonardo Boff e Frei Betto surge toda uma discussão teológica colocando o cuidado com a Mãe Terra como cerne do debate ético. Algo que o teólogo pacifista Schweitzer já colocava, nos anos 50, em sua luta contra as armas atômicas. Também movimentos religiosos de caracter popular vem resgatando a devoção ao sagrado manifesto na natureza. A abertura às tradições religiosas indígenas, africanas e orientais no ocidente tem alimentado este processo. Exemplos disto são as Romarias da Terra e das Águas e várias campanhas da fraternidade que expressão este processo.

Esforços que tem contribuído para dar maior penetração popular da dimensão ética implícita na visão ecológica profunda, que coloca como premissa maior o direito à vida plena de todas as formas de vida. Tanto as naturais como as culturais.

Processo que completa a visão cientifica, que impulsionou a primeira onda ecologista e que contribui para entranhar profundamente a visão ecologista, como um dos elementos fundamentais da grande revolução cultural, que caracteriza o início do terceiro milênio da era cristã. O que também trás a tona elementos importantes da visão bíblica como o valor da vida comunitária, o cuidado com a criação e a questão do amor ao próximo. Elementos que saltam aos olhos numa nova leitura de vários de seus enunciados que no passado deram fundamentação ética ao processo de “conquista da terra” e que, hoje, são reinterpretados a partir de uma visão de cuidado com a divina criação.

Fato que reafirma o caracter libertador da questão ecológica e seu comprometimento com a construção permanente de um mundo ecologicamente sustentável, socialmente justo, economicamente viável e culturalmente aceito.

Arno Kayser

*Agrônomo,Ecologista e Escritor

Texto publicado no livro “ A reconciliação com a Floresta” Porto Alegre Edipuc/ Mundo Jovem, 2007 Autorizada reprodução pelos editores

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Comentários

  • Pedro dos Santos Pinon  On 22/08/2012 at 20:11

    Muito obrigado por este artigo me ajudou muito no meu trabalho.
    Precisamos de mais artigos que falem, da situação da natureza

  • Tarcyane Guimarães  On 21/11/2012 at 16:59

    Valeeu Mesmo Galera Este Artigo Me Ajudou Muito Com o Meu Trabalho Escolar. ! # Continuem Postantos Mais Artigos Sobre Este Assunto .! 🙂

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