Rio mais vinte vem aí

“Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais”

Felix Guattari – As Três Ecologias”

O Fórum Social Temático focou seu trabalho na questão da sustentabilidade. Ainda que com algum atraso o reconhecimento da questão da crise ambiental tem revelado para as forças políticas de esquerda que não basta somente dividirmos melhor a riqueza para garantirmos um mundo melhor. É preciso tratar também da saúde do planeta para conseguirmos atender as necessidades da atual geração sem comprometermos as das futuras gerações.

O tema ambiental tem balizado os debates em busca de um mundo melhor depois do fracasso de algumas experiências socialistas que geraram certo desencanto pelas utopias que elas representavam.

Ainda mais quando ficou constatado que a maior parte das revoluções conduzidas por governos, sem participação popular, acabou se convertendo em ditaduras cruéis e que elas não souberam criar uma alternativa de desenvolvimento que também protegesse a natureza.

A História nos mostra que as grandes transformações sociais surgiram de movimentos sociais fortes. Cada vez mais cresce a certeza de que a sociedade civil organizada tem que pressionar o poder político e também o poder econômico. Esta parece ser a melhor forma de promover a criação de um mundo mais justo em que se promova não só redução das desigualdades econômicas e sociais, mas, também se proceda na restauração do equilíbrio natural.

Num mundo desigual necessitamos de Estados fortes capazes de dar conta destas tarefas. Mas estes Estados não devem ser governados por dirigentes a serviço do capitalismo predador do meio ambiente como ocorre hoje em dia na maioria das nações.

Precisamos de dirigentes políticos e lideranças comunitárias que se libertem da ilusão de que somente com mais crescimento econômico seremos capazes de resolver os problemas do mundo atual.

Precisamos é distribuir a riqueza e procurar produzi-la em processos ecologicamente sustentáveis.

O PIB atual é de 55 trilhões de dólares. O que dá uns 7850 dólares por ano para cada um dos sete bilhões de humanos.

É neste contexto que entra a contribuição da Ecologia. Ela é capaz de dar limites ao desenvolvimento que a Economia sozinha não consegue produzir. Isto porque ela estuda os limites que a disponibilidade de energia e matéria impõe a cada processo ou território.

A Economia trabalha com números relativos tratados estatisticamente em equações que podem gerar números astronômicos sem uma base real de fato. Isto cria a ilusão da possibilidade de desenvolvimento sem limites. Fato impossível num mundo limitado como o nosso.

Por conta destes limites a Ecologia indica a necessidade de um Desenvolvimento Ecologicamente Sustentável.

Este desenvolvimento parte de uma Ética que busca a promoção da vida em todas as suas formas e amplia a idéia generosa do compromisso desta geração humana de ter suas necessidades essenciais atendidas sem comprometer o provimento das gerações futuras.

Ele amplia na medida em que considera não só as necessidades dos seres humanos, mas de todas as espécies existentes no planeta.

Esta ampliação não tem só base num altruísmo meritório da humanidade em relação às demais criaturas, mas também emana da compreensão de que o equilíbrio e a força da vida dependem da diversidade.  A teia da vida é que sustenta esta manifestação do planeta. Há uma forte inter relação entre todas as formas de vida da Terra. Todas dependem de todas. A Humanidade não está fora desta equação. Ela também é interdependente das demais criaturas. E estas, por sua vez estão cada vez mais nas mãos dos humanos.

Portanto se queremos garantir condições de atendimento das necessidades essenciais desta e das futuras gerações humanas temos que pensar em garantir o mesmo para todas as demais formas de vida no planeta.

Todas estas reflexões se avivam na medida em que se aproxima a Conferência Rio mais Vinte. Momento em que a ONU pretende fazer um balanço dos avanços das idéias propostas em 1992 para resolver os problemas ambientais que se percebiam naquela época.

Não há como negar um fracasso da capacidade da ONU de impor aos governos dos países ricos e as multinacionais a implementação de medidas que contrariem os seus interesses mais imediatos.

Neste contexto cresce o papel das ONGs de promover mudanças neste mundo. Mas elas também têm alguns desafios a considerar para dar cabo desta tarefa.

O desafio para muitas delas é entender como promover a participação popular de forma organizada num mundo globalizado e articulado via internet. O caso das revoluções no mundo árabe e os protestos contra o sistema financeiro econômico nas praças de várias grandes cidades quase que simultâneos são um exemplo desta nova onda de organização que não existiam nos anos 90 na plenitude da forma contemporânea.

Outra questão é combater as idéias de criminalização dos movimentos sociais em curso em todo o mundo movidos por alguns grupos econômicos e forças políticas com forte penetração na grande mídia. Processo que tem fragilizado estes movimentos por criarem nova frente de luta.

Todos estes debates foram levantados no FST e devem prosseguir na Rio mais Vinte. Ali vão enfrentar outro problema. A crise financeira dos países ricos. Se depender dos humores econômicos destes países ela tende a ser mais um festival de postergações de iniciativas como tem sido as mais recentes reuniões de cúpula em torno das mudanças climáticas.

Se os governos estão sem gás e tesão para mudanças o poder econômico também tende a resistir pois só aceita mudar processos que não alterem o paradigma máximo que é a busca constante do lucro.

Por isto apesar de ser importante se mobilizar para este evento devemos mirar nosso olhar também para além dela e seguir debatendo a construção de uma agenda de reconstrução da humanidade e do planeta que pense como queremos ver transformado o mundo o mais breve possível.

Para fomentar este debate lançamos a seguir uma lista de pontos que podem figurar nesta agenda e se somar a outras tantas idéias que circula por aí para serem implantados nos próximos dez anos:

-Plantar sete bilhões de árvores nos seus ecossistemas originais;

-Prover um professor para cada grupo de vinte estudantes ganhando um salário decente e com pelo tempo pago para preparação de sua atuação profissional;

-Diminuir os efetivos de todos os exércitos do mundo em pelo menos 25%;

-Tratar pelo menos 50% dos esgotos de todas as cidades com métodos biológicos;

-Reciclar pelo menos 50% do lixo orgânico e 70 % do lixo seco;

-Implantar Unidades de Conservação em pelo menos 20% dos territórios de todos os países e pelo menos 30% das águas internacionais unidos por corredores de fauna;

-Produzir pelo menos 50% da matriz energética mundial com fontes renováveis;

-Criar Brigadas Nacionais e Internacionais para atuar em casos de acidentes naturais e desastres ecológicos;

-Criar um programa de serviço social que oportunize a todos os jovens na faixa dos vinte anos atuarem de forma remunerada como servidores de entidades humanitárias e ONGs para despertar vocações profissionais e oportunizar uma experiência de contato com os problemas do mundo contemporâneo e contribuir na atuação destas entidades.

-Criar um Programa Mundial de Renda Mínima de pelo menos quinhentos dólares por mês para todos os cidadãos do mundo a partir da taxação dos lucros do comercio de ações nas bolsas de todo o planeta para socializar esta riqueza e erradicar a situação de miséria que assola os mais pobres;

-Direcionar toda a compra pública de alimentos para a produção de agricultura familiar local em moldes agroecológicos ou orgânicos;

-Manter uma rede mundial de centros de artísticos, esportivos e científicos comunitários para atender as crianças e jovens;

-Universalizar o acesso de todos a serviços de saúde;

-Manter uma rede mundial de apoio a vítimas de guerras e epidemias ou tragédias naturais com prioridade para crianças e pessoas de idade;

– Manter um programa mundial de recuperação de áreas degradadas e recuperação de ambientes contaminados;

-Manter uma rede mundial de apoio a recuperação de dependentes de drogas;

– Manter um programa mundial de inserção social de pessoas com algum tipo de limitação física ou mental;

– Manter programas de intercâmbios artísticos, científicos e esportivos para pessoas de todas as gerações para criar uma rede mundial de fraternidade e tolerância as diferenças de cada cultura humana;

-Manter um programa mundial de apoio a eventos de trocas culturais;

-Manter um programa permanente de educação informal extracurricular para o apoio as todo tipo de organização social comunitária;

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

Dedicado aos que tornaram possível o FST em Novo Hamburgo onde boa parte destas linhas foi surgindo

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