Uma Política Cultural Sistêmica.

Minha expectativa de transformação política sempre foi de que as questões culturais sejam tratadas dentro de uma perspectiva sistêmica. Ou seja, que se desenvolva uma política de valorização das nossas raízes culturais relacionando-as com a nossa paisagem natural.

Isto porque é neste espaço que se desenvolve o processo histórico de relação do ser humano com seu meio. Está visão sistêmica, própria da visão ecológica, vê o processo cultural como um fruto da interação dinâmica entre a ação humana e os fatores naturais físicos e biológicos.

É desta relação, em que interferem tanto as rochas, rios, lagos, animais, plantas como as práticas e influências étnicas dos povos de cada lugar, sejam eles autóctones ou migrantes, é que surge o caleidoscópio do qual resulta aquilo que chamamos de cultura.

Aqui não só enfatizamos como manifestações culturais a fruição do belo como também o útil e necessário à sobrevivência que também são produtos culturais.

Pra nós cultura é fazer o pão cantando com a janela aberta. A estas antigas influências se soma, hoje em dia, toda uma gama de aportes e informações típicas de uma sociedade pós-moderna na qual o global interage com o local produzindo toda uma gama de fatos novos.

Numa imagem, adaptada aos pagos gaúchos, podemos dizer que está relação é semelhante a da Figueira, da orquídea e do vento. A figueira simbolizando a base natural telúrica com suas marcas determinantes como o frio, a pampa, as serras, os rios, os vales e o mar. A orquídea simbolizando os diferentes agentes humanos com seus coloridos e tons tão variados. Já o vento as informações do mundo contemporâneo que nos chegam através da mídia cosmopolita.

Esta imagem pode ser montada em qualquer lugar do planeta usando elementos próprios de cada paisagem.

Cremos que uma política cultural progressista deva dar oportunidades de que todas as interações entre estes agentes se dêem de forma harmoniosa e produtiva em que cada aspecto seja valorizado e tenha oportunidades iguais de se manifestar.

Com isto contribuindo para o fortalecimento das identidades locais autênticas sintonizadas com os ventos da pós-modernidade.

Para tanto é necessário não só manter espaços e financiar atividades como, fundamentalmente, provocar e desafiar todos os produtores culturais para a construção de uma política cultural que tenha a cara do seu lugar nos dias de hoje.

Estas provocações devem ser na forma de desafios que respeitem as marcas peculiares decorrentes de paisagens únicas e misturas raízes étnicas próprias de cada lugar. Tudo numa proporção relativa própria bem diferente das proporções e elementos de outras regiões do mundo.

Assim estaremos dando continuidade ao processo histórico nestes tempos tão conturbado e marcado por tantos conflitos. Processo que respeite o local, mas que quebre as barreiras entre o tropical e o temperado. Entre os elementos naturais e culturais do norte e do sul. Entre influências de um passado cultuado e influências contemporâneas marcantes.

Enfim um desafio participativo que opere uma química sinérgica construtiva e sintonizada com os dias de hoje. Uma política que contribua na construção de espaços culturais ecologicamente sustentáveis onde todas as formas de vida ocorram na sua plenitude.

Arno Kayser- Agrônomo, ecologista e escritor

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