Por uma visão ampla da vida

O Professor Ernest Sarlet costumava dizer, com freqüência, que o especialista é aquele cara que vai cada vez aumentando o grau de conhecimento sobre um campo cada vez mais limitado até chegar ao cúmulo de saber tudo sobre nada.

Exagerada talvez e muito engraçada, esta observação têm o dom de colocar de forma simples um dos maiores problemas contemporâneos. O predomínio, entre os mais estudados, de uma visão estreita que tem levado a humanidade a um verdadeiro diálogo de Babel onde cada um domina um linguajar complexo e significativo apenas para uma meia dúzia de iniciados. Linguajar este ao qual se apegam com o desespero de um naufrago a tábua de salvação e atrás do qual escondem a sua ignorância quase total da maioria das coisas que o cercam. Presas a isto se tornam incapazes de criar soluções originais para os desafios do mundo contemporâneo.

José Lutzenberger sempre dizia que a maioria de nós não passa de selvagens modernos. Como primitivos convivemos num mundo de alta tecnologia sem entendermos os princípios elementares em que se baseiam as coisas mais comuns que nos cercam como a eletricidade ou o motor a combustão por exemplo. É claro que enquanto as coisas vão funcionando bem não há problema. O crepe só pinta quando a bendita tecnologia não funciona. Aí nos vemos atados a nós que muitas vezes são simples de serem desatados.

O mítico Gurdiefff relata que sobreviveu, muitos anos consertando bugigangas tecnológicas nos inícios do século XX que a burguesia russa comprava para mostrar riqueza. A maioria com defeitos prosaicos como um simples botão desligado. Mas para aqueles ignorantes dos princípios em que se baseavam as máquinas modernas eram mistérios tão insondáveis como as mais altas indagações da filosofia. Acostumado que estavam a ver a realidade de um ponto de vista sintético e integrado não lhe era difícil elucidar os problemas daquelas máquinas mesmo sem nunca ter feito um curso de engenharia. E o engraçado é que ele confessa que quanto mais simples era o defeito mais alto costumava cobrar. É claro que para tanto inventava uma série de razões para justificar os altos custos do conserto.

É por situações assim que, já na década de 50 do século XX, Aldois Huxley, em seu genial livro “A Situação Humana”, apontava cada vez mais a necessidade de pessoas com uma visão de “Pontífices maximus”. Pessoas capazes de fazer as grandes pontes entre as várias áreas de conhecimento que originem soluções criativas. Gente suficientemente humilde para, como Sócrates, reconhecer que “nada sabem” e dispostas a dialogar com os saberes diversos naquela postura de mútuo respeito que nos pede Paulo Freire.

O fato é que a maioria dos problemas modernos vem de uma visão muito estreita e especializada. Um exemplo, já clássico, é o do lixo industrial. Este surge quando um especialista numa tecnologia qualquer está na testa de um empreendimento e desconhece a base para outro processo produtivo que não gere o resíduo. Sem saber o que fazer o comum e mais simples é o descarte (da forma mais discreta possível para evitar multa) no meio ambiente.

Alguém com uma visão mais ampla saberia criar uma solução que levasse a um desenvolvimento sadio do ponto de vista da saúde do planeta.

Esta visão mais ampla tem sido denominada como visão sistêmica. Seu fundamento prioriza a contemplação dos processo e não a mera analise das partes. Assim como um ser humano é algo maior que a mera reunião de seus tecidos e órgãos também a realidade material é muito maior que a justaposição das suas partes.

Assim como fracassou Frankstein ao tentar vencer a morte costurando pedaços de cadáveres também fracassam, hoje em dia, os super especialistas tecnocratas que propõem soluções simplistas para os problemas do mundo atual. A dinâmica da nossa sociedade hoje é tal que não podemos mais atacar com soluções reducionistas os problemas da contemporaneidade. O planeta esta chegando ao seu limite ante o assédio da humanidade.

No passado o impacto humano era muito pequeno em proporção a capacidade de regenerativa da natureza. Um aborígene com machado de pedra podia muito pouco contra uma floresta. Já um cara com motosserra é diferente. Ainda mais se lembrarmos que para cada aborígene do passado há hoje centenas de pilotos de motosserra.

Esta forma sistêmica de ver o mundo é a formula pela qual a natureza sempre lidou com as dificuldades. Ao longo de toda sua história o planeta resolveu seus problemas transformando-os em soluções para novas formas de vida buscando gerar mecanismos que funcionam dentro de uma lógica fechada e circular. O Homem em sua visão individualista tem insistido numa forma linear de lidar com as dificuldades da vida e deixar para os outros o problema (Em geral os outros são os mais pobres ou o próprio meio ambiente).

Mas isto tem mudado e cada vez mais pessoas apontam e se dispõe para uma forma de lidar integrada com as coisas. Capra em seu livro “O Ponto de Mutação” cita vários exemplos desta verdadeira revolução cultural dos nosso dias que ele compara ao Renascimento. Um momento histórico em que a humanidade se vê obrigada a mudar paradigmas e agir de uma modo novo.

Um modo de mais diálogo e respeito à diversidade em que cada um contribui com seu talento e capacidade para uma solução que é mais que a mera soma dos seus conhecimentos. Uma solução com alma que sedimenta e organiza de um modo novo o processo da nossa vida em sociedade e nossas relações com o Cosmos. Quem não quer ficar por fora desta deve ir tratando de modificar seu jeito de agir e se abrir para um espaço novo de levar a vida.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

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Comentários

  • Renato Hoch  On 13/02/2012 at 01:38

    Tudo bem no geral, mas esquece o autor que sem o conhecimento profundo de certas matérias (especilizaçoes) não se teria chegado ao computador – só prá citar um exemplo apenas (poderíamos desfiar um colar de outros: macromoléculas, nanotecnologia, biotecnologia, etc e tal). Então dizer que
    “O fato é que a maioria dos problemas modernos vem de uma visão muito estreita e especializada”
    é no mínimo um grande exagero, típico de quem não entende das coisas e desconfia de quem entende achando que está “a serviço do mal”. Quer pregar o bem mostrando o mal.

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