A IDADE DO RIO DO SINOS

Que idade tem o rio dos Sinos? Segundo os geólogos, ele tem cerca de 110 milhões de anos. Teria surgido quando da separação da África e América. Naquele momento um tremendo movimento sísmico fez brotar magma quente, em profusão, que se derramou, feito mingau quente, sobre as areias do imenso deserto que deu origem aos arenitos da base do vale. O magma, por sua vez, deu origem ao basalto da encosta da serra.

Quando esfriou o magma rachou formando imensas fendas. Numa delas se formou o Vale dos Sinos. De lá para cá a água veio moldando a paisagem e preparando o território para a vida selvagem. Posteriormente veio a ocupação humana. Esta, segundo os arqueólogos, chegou ao vale por volta de nove mil e quinhentos atrás.

Foram os indígenas que deram os primeiros nomes ao rio. Itapuí e Cururuaí. O primeiro significando rio das pedras que gritam. O segundo rio dos ratões do banhado. Os ratões costumam gritar, à noite, de suas tocas. Estes gritos podem ter dado a impressão de que eram as pedras que gritavam no escuro. O que pode ser uma explicação para os nomes indígenas e, até mesmo, para as lendas que envolvem a origem do rio dos Sinos. Há quem diga que os jesuítas, fugidos da guerra guaranítica, tenham jogado sinos no fundo do rio. Sinos que continuam batendo em memória dos que tombaram naquela guerra genocídica.

O fato é que depois vieram os brancos. Estes expulsaram os índios e mudaram o nome do rio para Sinos. Uma menção as suas voltas sinuosas, segundo os historiadores.

O interessante é que todos estes nomes ajudaram a construir a imensa identidade dos habitantes do vale com seu rio. Tanto para os indígenas, quanto para os colonizados, o rio era um importante fator de vida.

Nós, com o progresso do século XX, perdemos muito desta vinculação. O rio foi sendo deixado de lado como elemento agregador da comunidade. Deixou de ser nosso espaço de aventura e integração com a natureza. Passou a ser uma cloaca para nossos resíduos. Um local para moradia dos pobres. Uma fonte de água para a cidade e a indústria. Um rio de onde tiramos centenas litros de água por segundo

Coisa que vem mudando, é verdade, nos nossos dias. As secas enchentes têm chamado, ainda mais, a atenção para a situação do rio. Parece que os sinos do fundo estão voltando a badalar de tão exposta que está a dor do rio. Lixo, lodo, morte de peixes e esgoto tem dão sinais estão aflorando. Mostrando o que tem sido feito ao pobre corpo d’água.

Nas cheias ele quase tem passado dos muros dos diques, nas secas um homem alto fica abaixo do limite superficial da margem. Uma situação que, certamente, ele passou poucas vezes nestes 110 milhões de anos.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

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