COURO X

Mal o galo cantou e ele saltou da cama. Era assim todo o dia. Tirar leite das vacas, tratar os porcos e terneiros. Dar um capricho no touro fino que o patrão comprara na exposição. Bicho bonito pra emprenhar as vacas e melhorar o rebanho.

Desde menino vivia nesta lida. O pai até tivera muita terra quando vivo. Mas, amigo do baralho e da bebida, perderá quase tudo no jogo. Dos cento e tantos hectares só sobraram uns dois para a viúva. Mas naqueles tempos as terras não valiam nada no cantão perdido em que se criará. Só depois que fizeram a estrada cortando o banhado é que elas pegaram preço na região. Era um dos mais moços, da segunda esposa do velho. Eram mais de quinze filhos juntando as duas. Vivos nem sabia ao certo quantos ainda estavam. De alguns não tinha notícia a mais de dez anos. Crescera filho de criação de um padrinho. Mal tivera tempo para ir uns dois anos na
escola. Era longe e a roça precisava de braços. Tinha que compensar a comida que ganhava.

Com a estrada muita gente da cidade comprou terra na região. Velhos colonos se tocaram para a cidade em busca de melhor sorte. Os ricos tomavam conta. Logo faziam cerca e porteira nova. Depois casa boa. Alguns, mais endinheirados, até piscina. Aquilo tudo mudará a tranqüilidade do antigo lugarejo. O padre dizia que era pecado, mas ele até gostava, da área da sua casinha, de espiar as amigas da patroa tomando banho de sol, no chimarrão do meio dia.

Conseguira o emprego por indicação de um conhecido. Era duro de lidar com o gado e a roça. Mas o patrão era bom apesar de muito exigente. A casa, o rancho e o salário até que davam. Mas, às vezes, pensava em se mandar para cidade. Trabalhar com carteira assinada. Ajeitar a aposentadoria da mulher. Muitos amigos dos tempos de guri tinham ido. Alguns se davam bem. Outros quebraram a cara. Mas ele ia ficando. No fundo gostava daquela vidinha.

O que segurava as pontas que o salário não cobria eram os câmbios que fazia. Gostava de fazer estes negócios. O prazer do regateio e do acerto do preço era a coisa  que mais o divertia. Naquele dia mesmo iria ver uma égua no vizinho. Queria ver se punha a terneira e a porca falhada no negócio. O agregado do vizinho era meio louco e capaz de aceitar.  Brabo, só mesmo, se o danado quisesse volta.

Mas isto era assunto para  mais tarde estava desconfiado que o patrão viesse e havia muito por fazer.
Tomou uns mates na cozinha com a mulher e a deixou lidando com o fogão de chapa. O patrão era do tipo genioso. Às vezes era um santo. Noutras ralhava
como o demônio. Não sabia bem do que ele vivia. Mas era um cara muito rico. Vinha sempre com a sua camioneta nova. Volta e meia trazia amigos e fazia
questão de tudo em ordem. A terra dava um trabalho medonho. Mas o pior era manter a casa nova em dia. Ele, às vezes, chegava de repente e queria logo ser
atendido. Inventará de criar gado de raça depois da visita a um vizinho. Era mania entre os ricos. Cada qual querendo exibir melhores animais. Investirá uma baita grana num lote de vaquilhonas e no touro. Era bicho demais pra área. Nem sabia onde iria arranjar pasto no inverno. Mas o patrão na parecia ligar para isto. Queria ver os bichos lustrosos e gastava dinheiro como água em ração, veterinário e remédios. Também insistia em ter uma horta. Ele não sabia ouvir um não. Estava preocupado. Aquilo de horta era coisa de mulher no padrinho. Cultivava uma que outra verdura. O patrão trouxera sementes de que ele nunca ouvira falar. E não adiantava falar em problemas. O homem queria e pronto. Volte e meia fazia e desfazia as coisas.
Teimoso não ouvia os conselhos do empregado e teimava em fazer coisas que lia nas revistas. A última era criar minhocas. Esquisitice de gente da cidade. Mas
fazer o quê. Estava ali pra trabalhar. Era baixar a cabeça, como os bichos de canga, e meter a mão.

Saiu no ar frio da manhã. Gostava de sentir o cheiro das plantas de manhã cedo. Mas hoje havia algo esquisito no ar. O pastor alemão não veio recebe-lo com festas como fazia de costume. A porteira do estábulo estava aberta. Nervoso correu até ela. O cão jazia, envenenado na palha. O touro sumira. Seguiu os rastros até o capão da sanga. Os bandidos haviam carneado ali mesmo. O sangue melava o capim. Não sobrou nem sequer o couro pra contar a história.

Arno Kayser Agrônomo Ecplogista e Escritor

Agosto 1991

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