Entrevista para revista IHU Instituto Humanitas da UNISINOS

Por Moisés Sbardelotto quando 6º Encontro de Agentes para o Ecumenismo – Mutirão Ecumênico

Agosto 2011

1)Sua palestra no Mutirão Ecumênico será “Ecologia:Desafios e perspectivas”. Quais são os principais desafios ecológicos do nosso
país hoje?

O Brasil é um país mega diverso em franco crescimento econômico e político no mundo, mas que ainda apresenta um quadro de grande concentração de renda e uma escala muito grande de pobreza.

Apesar do crescimento econômico e projeção política do país ainda somos uma economia dependente que se insere no mercado internacional pela exploração inadequada dos seus recursos naturais. Em particular o solo, as florestas e reservas minerais que ainda são consumidas para gerar uma pauta de exportação de
produtos primários sem grande valor agregado.

De um lado temos o desafio de preservar nossa natureza incrível da destruição para incorporação ao processo econômico e de outro temos que combater os problemas decorrentes de uma industrialização crescente e uma grande concentração humana em mega cidades. Estes geram poluição industrial e degradação de paisagens e recursos essenciais como a água.

Outro desafio é o saneamento ambiental do lixo e esgotos nos grandes centros e também a poluição do ar gerada pelo transportes baseado em carros e alguns pólos de indústria pesada.

Outro grande desafio vem da geração energética. Apesar de termos muitas hidroelétricas o nosso modelo prioriza mega projetos que inundam grandes áreas, deslocando populações humanas e alterando ecossistemas delicados. Apesar de termos uma boa produção de combustíveis renováveis eles vêm de grandes monocultivos. O Estado de SP tem quase 50% da área dedicada à produção de cana. Além disto a indústria do petróleo cresce muito no pais reforçando uma modelo de produção que tem trazidos impactos poluidores e incrementado mudanças climáticas extremas no mundo todo.

Estas mudanças climáticas também são uma ameaça a produção de alimentos e a segurança de populações em áreas de risco.

Temos um potencial muito grande em energias limpas que precisa ser desenvolvido.

No campo temos que proteger nossas paisagens naturais que em maior ou menor grau estão sendo alteradas e destruídas e proteger recursos como solo agrícola e água para produção de alimentos. Tanto a mata atlântica, como o cerrado, a pampa, o pantanal, a caatinga e a mata amazônica sofrem em maior ou menor grau com uma ocupação desordenada e baseada na pura exploração econômica sem uma visão ecológica coordenando o uso ecologicamente sustentável destas paisagens.

Outro grande desafio é retirar da miséria grandes contingentes de pessoas que, hoje, sobrevivem em ambientes insalubres ou áreas de risco e que se vêem forçadas a destruir ou contaminar o ambiente em que vivem para sobreviver.

Mas talvez o maior desafio seja superar a visão atrasada das classes políticas e empresarial e de grande parte da população que crêem que somente como mais atividade econômica clássica é possível crescer. Este paradigma tem que ser superado com a sua transformação numa visão de crescimento em parceria e obediência às leis naturais. O Brasil por seu potencial é um dos lugares do mundo com maior potencial de desenvolver uma econômica limpa e em harmonia com a natureza se
fizer esta evolução cultural.

2)Por outro lado, no âmbito das perspectivas, como as Igrejas cristãs podem contribuir com o cuidado ambiental, sabendo-se que
muitas decisões nesse âmbito são de nível político? 

As igrejas cristãs em seu papel de testemunho da mensagem do Cristo, que as fundamenta, têm um grande papel na mobilização da população para realizar este transformação, pois ela começa no plano moral e ético onde temos que aprender a incluir como próximos a serem amados não só os irmãos humanos, mas todos os demais seres deste planeta. Debate que já vem sendo travado no seu seio a algum tempo diga-se de passagem.

Neste debate elas podem ajudar muito na formação de visão crítica na população que questione as decisões políticas atuais e as substituam por outras que visem o bem estar coletivo e não só o desenvolvimento da economia de grandes grupos econômicos ou a concentração de poder em alguns caciques políticos que hoje controla a cena nacional.

Ao mesmo tempo ao nível de base pode ser abrigo e incentivadores de iniciativas e organizações que comecem a construir uma sociedade baseada em fundamentos ecológicos e que movimente e economia no sentido de atender as necessidades reais das pessoas e promover a vida em todas as formas em substituição ao modelo atual que somente visa o lucro financeiro em detrimento de todo o resto.

3)A temática do Mutirão é “Unidos em Cristo na
defesa da Criação”. Para o senhor, o que significa “defender a Criação”?

A criação é a denominação cristã desta maravilhosa sinfonia que é o universo no qual acontece a aventura da vida humana e não humana. Defender a criação é uma conseqüência natural do deslumbramento com o seu esplendor e também uma decorrência do conhecimento de um sem número de ameaças a sua plena  manifestação segundo o desejo divino do Criador. Criador que para os cristãos se manifestou em plenitude na figura do Cristo. A leitura da Bíblia nos relata que muito da evolução espiritual de Jesus se deu no contato com a natureza. Ele se retirou para o deserto para enfrentar a tentação e na hora mais dura antes da sua
provação final escolheu um jardim para orar e se fortalecer. Unir se a Cristo na defesa da Criação é se pautar nestes gestos e se colocar ao lado dos fracos
deste mundo que estão em perigo. Entre eles, os pobres, as populações tradicionais, os animais, as plantas, a água, a terra e o ar que fazem parte da Criação.

4)Em nossa realidade brasileira, especialmente na região Sul, que aspectos ambientais devem ser levados em conta nessa defesa?

Ecologicamente a região Sul do Brasil esta na faixa subtropical. O que faz dela uma zona de fronteira onde ocorrem vários ecossistemas de transição como a mata subtropical dos grandes rios e da costa atlântica, a mata de araucária e a pampa. Estes são relativamente pequenos em relação a outros ecossistemas e estão expostos a um sistema de produção agrícola baseado em monoculturas. Em especial da soja e do eucalipto.

Mas também no sul temos os mesmos problemas de grandes concentrações urbanas de poluição dos recursos naturais e degradação humana. Os desafios são similares ao do resto do país.

5)Em sua opinião, quais são as principais contribuições da espiritualidade e da mística cristãs para a defesa da Criação?

O amor universal e a comunhão dos justos. O amor universal nos chama para a defesa dos próximos que existem na criação e a comunhão nos coloca na condição de igual para com toda a Criação. O que é a base para toda uma prática de serviço em prol da manifestação plena de todas as formas de vida.

6)Há visões antropológicas ou cosmológicas que as Igrejas precisam mudar para que a defesa da Criação seja mais bem compreendida
e posta em prática?

Talvez o principal desafio das Igrejas seja reinterpretar uma visão teológica que compreendeu o ser humano como senhor da Criação colocando toda ela a seu
dispor.

Esta interpretação errônea levou a um sem número de violências contra os fracos e justificou moralmente e destruição da natureza em prol do deleite humano.

Creio que a reinterpretação deva colocar o ser humano como parte integrante da Criação e não como senhor dela.

Mas uma parte com responsabilidades maiores decorrentes das potencialidades humanas de compreender os fundamentos científicos da Criação e da capacidade de amor universal que é latente em todos os humanos. Talentos que nos delegam tarefas maiores na gestão da criação.

7)Muito se fala hoje em sustentabilidade ou desenvolvimento sustentável. É possível equilibrar o desenvolvimento humano e social com a defesa da Criação?

Creio que sim. Mas para isto devemos buscar um desenvolvimento ecologicamente sustentável. O conceito de desenvolvimento sustentável dominante ainda tem muito da visão economicista. Quem o defende ainda acredita que precisamos de mais desenvolvimento econômico ignorando o fato de que já temos muita atividade
econômica, mas ela esta mal distribuída. O desenvolvimento ecologicamente sustentável prega a garantia das necessidades das gerações atuais sem prejudicar as necessidades das populações futuras. Mas amplia este conceito para todas as formas de vida e não somente as necessidades humanas.

Ele também questiona o tipo de necessidades a serem garantidas. As de sobrevivência ou as de um consumo de luxo? O exemplo das demais formas vivas nos mostra que de um modo geral as criaturas querem ter garantidas as necessidades de sobrevivência. Não há luxos entre elas. E nem por isto elas não deixam de ter uma vida rica e interessante.

Os seres humanos têm muito a aprender no sentido de preencherem sua existência com praticas e preceitos que elevem a sua condição para uma vida de maior gozo
espiritual e de relação fraterna com os semelhantes em substituição a uma busca por uma felicidade baseada em objetos e sensações de consumo.

Neste sentido também há uma grande contribuição que pode vir das igrejas cristãs a partir do próprio exemplo de Cristo que viveu uma vida simples no convívio com os amigos sem abrir mão de momentos de festa e regozijo com seus próximos e praticando o bem e se colocando ao lado dos necessitados de toda ordem no enfrentando das dificuldades e opressões de seu tempo.

8)Um de seus livros mais recentes aborda a reconciliação com a floresta. O que significa essa reconciliação?

Significa superar o medo da selva que acompanha o ser humano deste priscas eras. Medo  baseado em um desconhecimento da verdadeira natureza da selva que levou o ser humano a uma relação de enfrentamento e de dominação da natureza. Se reconciliar é superar uma relação baseada no medo e se reintegrar com a parte
selvagem que há dentro e fora de nós nos percebendo como uma parte de um todo em permanente relação de interdependência. A ciência já nos demonstra que todas  as criaturas vivas cooperam para fazer deste planeta um lugar aprazível para se viver. Nós temos que perceber que temos uma tarefa nesta missão e nos
reconciliarmos como todos os demais seres para melhor cumpri-la.

9)Como o senhor analisa a educação, a formação e o conhecimento ecológicos da população em geral, especialmente da nossa região?
Que avanços precisam ser feitos nesse processo educativo ambiental?

A maior parte da população foi educada dentro do paradigma do ser humano como rei da criação e como tal ainda não percebe com clareza seu papel na construção de uma sociedade ecologicamente sustentável. Na verdade estão em grande parte mergulhados na busca do consumo com o formula de felicidade sem perguntar bem dos custos disto para a vida do planeta.

Mas felizmente uma parcela significativa das pessoas, em particular os jovens, vem se educando dentro de uma nova visão de parceria com a natureza. Esta visão se iniciou no sul com o trabalho de educação informal de grandes lideranças como Henrique Roessler, José Lutzenberger e Magda Renner entre outros. A  continuidade dele se deu com o trabalho de toda uma geração do qual faço parte, organizados em entidades ecológicas em várias regiões do país e que tem se desenvolvido muito em escolas e comunidades através de projetos pedagógicos formais e informais de várias espécies. Este processo vem num crescendo deste a Eco 92 e vem formando toda uma nova geração que aos poucos vai se impondo.

O desafio atual é não permitir que este processo generoso se perca num mar de falsas promessas de um consumo verde. Vale lembrar o que ocorreu no passado com boa parte da geração hippie que se perdeu nas drogas ou num mundo de trabalho Yupies que esvaziou ou cooptou seus esforços transformadores. É preciso aprofundar o processo de educação ambiental coletiva para que todos nós juntos aprendamos a construir um mundo em harmonia com a natureza. Uma tarefa que
ninguém sabe exatamente o que, mas que muitos já têm certeza do que não seja.

10)Junto com as Igrejas, diversos são os movimentos da sociedade civil preocupados com as questões ecológicas. Como o senhor
analisa a caminhada desses movimentos hoje? É possível estreitar as relações entre as Igrejas e esses atores sociais?

Acho que a partir do Fórum Social Mundial temos assistido um processo de convergência e diálogo entre vários movimentos da sociedade civil que são  potencializados pelos sinais cada vez mais urgentes que a degradação ambiental tem nos dados diariamente. A tarefa de proteger a natureza tem um apelo muito forte semelhante a do combate da fome, da miséria e da construção da paz e o enfrentamento das injustiças.  É uma tarefa agregadora e inquestionavelmente urgente. As igrejas também têm atuado neste contexto trazendo para o diálogo a questão do desenvolvimento de uma espiritualidade que de conta do vazio da sociedade de consumo excludente em que estamos inseridos. É uma contribuição que se soma a base científica que gerou o movimento ecológico e contribui na formação de uma transformação cultural profunda que resulte em atitudes e novas técnicas para superar os desafios decorrentes da devastação do meio ambiente.

Neste contexto a aproximação é inevitável e necessária, pois ela nos fortalece e nos une sem que cada segmento precise abrir de sua individualidade mas  disponibilize seu potenciais na gestação de um ecossistema reequilibrado como ocorre com os demais seres deste planeta.

11)Deseja acrescentar algo?

Como diz Douglas Adams no livro “Manual do Mochileiro das Galáxias”: -“Não entre em pânico”. Mesmo que a catástrofe ambiental pareça inevitável a vida sempre
encontrou um jeito de sobreviver se adaptando e se transformando. A consciência dos problemas ambientais não deve nos paralisar, mas ser um fator de motivação
para a ação junto ao seu grupo ou comunidade. As tarefas são muitas e há espaço para todo tipo de habilidade ou conhecimento. Só se mexendo é que a gente
descobre qual é o seu papel no processo.

*Arno Kayser é agrônomo, ecologista e escritor. É membro ativo do Movimento Roessler para Defesa Ambiental, entidade ecológica de Novo Hamburgo, RS. É um dos fundadores e membro ativo do Comitesinos, primeiro comitê de bacia do Brasil.

Já atuou, com educação ambiental, no município de Novo Hamburgo e no Comitesinos.

Trabalha, como fiscal ambiental, na FEPAM, órgão ambiental do estado do Rio Grande do Sul.

Foi colaborador do Jornal NH, Folha de Novo Hamburgo, na seção de ecologia. Também já teve artigos publicados em vários jornais e revistas do Brasil.

Destaque aí  para sua colaboração na revista Mundo Jovem.

É autor de peças teatrais infantis e livros de poesia e crônicas, com ênfase na área ambiental. Autor de “a reconciliação com a floresta” pela Editora Mundo
Jovem e “A Borboleta que queria morrer” pela Editora Oikos.  Também já escreveu roteiros para vídeos ecológicos.

Email:arnokayser@ig.com.br Blog: http://www.arnokayser.wordpress.com

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