Panorama Ambiental do Vale do Sinos

De um modo bem resumido podemos dizer que o Vale do Sinos começou a se definir geologicamente quando da formação do Grande Deserto de Botucatú  à cerca de 250 milhões de anos. Este deserto propiciou a formação das dunas que deram origem aos morros areníticos que formam os divisores de água ao sul do vale e todo o seu embasamento geral. Sobre este material, quando da separação de África e América, a cerca de 118 à 130 milhões de anos atrás, se esparramou a lava vulcânica que deu origem a Serra Geral. Nas fendas deste Magma, recém resfriado, começaram a ser talhados os rios e arroios que formaram a Bacia do Sinos. Estes agentes erosivos modelaram a paisagem gerando uma série de depósitos aluviais recentes nas zonas mais baixas do Vale.

Estes processos  e as alterações climáticas ao longo das eras geológicas produziram quatro paisagens naturais bem definidas. Os Campos de Cima da Serra(situados acima de 900m de altitude);  A Floresta Subtropical da Encosta(nas cotas de 30 à 900 metros de altitude); A Floresta da Serra do Arenito(nas cotas de 30 à 200 metros de altitude) e os banhados e várzeas (nas cotas abaixo de 30 metros).

Sob este pano de fundo operaram várias etnias humanas ao longo dos últimos milênios. Cada qual com seus respectivos impactos ambientais ao longo  de grandes ciclos sócio, econômicos e culturais.

Desde a pré história até a primeira metade do século XIX atuaram fortemente os indígena. Estes produziram pequenos impactos em função de seu baixo poder tecnológico. Embora faltem muitos estudos sobre a questão se pode dizer que eles introduziram novas espécies animais e vegetais, alteraram a composição
vegetal por seus manejos agrícolas e extrativistas e contribuíram para a extinção de algumas espécies da fauna pelo pressão de caça e uso do fogo.

Depois deles veio o ciclo dos latifúndios, especialmente no curso inferior do rio mas também nos campos de cima da serra, nos séculos XVII à XIX. Eles introduziram o gado, fizeram grandes plantações(em particular o Cânhamo) , iniciaram a exploração da araucária e ampliaram bastante a prática da queimada. O que fez diminuir muito a floresta e expandir as zonas de campo.

Depois deles, com a vinda dos alemães no século XIX, vem o ciclo da pequena agricultura camponesa. Ciclo que vem até os dias de hoje cada vez mais fraco. Seu apogeu ocorreu na primeira metade do século XIX. Com eles começa a erosão e o assoreamento como produto da intensificação do desmatamento. Ocorre uma redução drástica da fauna pela caça e diminuição de habitats e um intenso esgotamento do solo destinado a agricultura de abastecimento regional.

Sucede-se a este ciclo o do pequeno artesanato de couro. Ele começa no fim do século XIX e avança no século XX. Provoca o início da poluição química devido ao curtimento, a formação de pequenas vilas e núcleos comerciais que passam a modificar a paisagem da colônia.

Com a chegada do trem na virada do século XIX para XX inicia-se a revolução industrial no Vale. Esta propiciou, na primeira metade do século XX, o  primeiro ciclo industrial. O que gerou muitos impactos ambientais. Dentre eles a extração de tanino de plantas nativas(angico em especial), ampliação de
curtumes e fábricas de sapatos, surgimento de pequenas hidroelétricas e uma urbanização crescente. O que exigiu mais produção agrícola e forte pressão
sobre a mata de araucária. Também fez surgir o eucalipto na paisagem para a produção de dormentes e uso como lenha para a via férrea. Estes impactos
geraram a primeira reação ambientalista comandada pelo pioneiro Henrique Roessler.

Os anos 60 são os da consolidação industrial que levou a ampliação dos impactos anteriores e de quebra principiou o êxodo rural, o aumento da poluição e a
ocupação dos banhados para fins urbanos. O que aumentou o efeito das cheias  e trouxe muitos problemas para as cidades maiores da região.

Os anos 70 à 90 são marcados pelo ciclo exportador de calçados e a diversificação industrial da região. Surge a petroquímica, indústria de alimentos e a
metalurgia em larga escala. A poluição vai a níveis críticos. Os impactos no rio são cada vez maiores levando a saturação em vários momentos mais críticos. O
que provoca grandes mortandades de peixes e grande acúmulo de lixo nos cursos dágua. Os pequenos arroios urbanos são levados, praticamente, à morte pela
poluição cloacal, do lixo e das indústrias. Favelas e lixões pipocam na região enquanto que no campo cresce o despovoamento humano. Também o Pinus e a Acácia
surgem em grande escala na paisagem depois de serem introduzidos nos anos 50 e 60.

Fatos que trazem várias  reações a este desequilíbrio. Por conta do abandono de várias áreas são regeneradas, naturalmente, grandes porções de vegetação nativa. Não mais com o primitivo status e exuberância mas com uma colaboração interessante para o ressurgimento de vários elementos da fauna. Inicia-se o trabalho de combate a poluição em vários níveis. Um forte movimento ambientalista surge na região junto com um grande trabalho de educação ambiental a nível formal e informal. O que culmina na formação do Comitesinos. Entidade voltada a recuperação e ao gerenciamento das águas da região.

Estes fatos todos , deste o passado distante do deserto de Botucatú até a ação do Comitesinos, geraram e vem gerando a paisagem que nós conhecemos hoje com o nome de Vale do Rio dos Sinos. Território com o qual nos identificamos e que é muito importante para a realização plena das nossas vidas posto que não
existimos no vácuo mas sim inseridos dentro de um contexto natural e cultural. O futuro deste território será a resultante de nossas ações coletivas nestes
dias. O que será construído a partir da nossa efetiva percepção nos dias de hoje no nosso meio. Cabem bem meditarmos a este respeito para que os próximos
ciclos de nossa região não pelos seus impactos ambientais negativos mas por um intenso esforço bem sucedido de melhora da qualidade de vida numa perspectiva
ampla e democrática para todas as formas de vida que aqui escolheram viver.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

Com a colaboração de Paulo Saul

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