Os Primórdios do Comitesinos

Não é à toa que o Rio dos Sinos é o palco do primeiro Comitê de Bacia do Brasil. Todo um processo histórico existe para justificar este fato.

A vinculação da nossa comunidade com o rio é muito antiga. Inicialmente tínhamos, aqui, uma região de terras públicas dedicadas as grandes produções do Império Português. Era a Real Feitoria do Linho Cânhamo. Um empreendimento baseado em mão de obra negra escrava. Tanto que temos o bairro Feitoria em São  Leopoldo e o bairro Quilombo em Lomba Grande.

Como este projeto não deu muito certo o Imperador D. Pedro I (que pretendia estender o jovem Império Brasileiro até o Uruguai retomando a Colônia de Sacramento) trouxe colonos alemães para manter uma base agrícola e artesanal para as necessidades de seus propósitos expansionistas.

O Rio dos Sinos foi a via de chegada e o meio de comunicação com a Capital até a chegada do trem. Mais tarde a região começou a desenvolver uma indústria coureiro-calçadista baseado no artesanato dos primeiros imigrantes. No início do século XX surgem as primeiras fábricas, movidas à eletricidade, de Pedro Adams Filho. O que intensificou os impactos ambientais na nossa região.

É quando surge um marcante personagem da nossa história. O contabilista Henrique Roessler. Desde criança ele desenvolveu uma relação profunda com o Rio dos Sinos. Quando criança vivia na rua da Margem em uma casa quase na beira do rio. Esta relação desenvolveu um forte sentimento de identidade com o corpo hídrico. Tanto que, mais tarde, ele começou um forte trabalho em defesa da natureza.

Durante anos foi delegado de caça e pesca voluntário. Também foi o fundador da primeira entidade ecologista do país. A União Protetora da Natureza. Fundada em 1955 deu continuidade a sua luta e formou vários ecologistas gaúchos importantes.

Na mesma época atuou um grande pesquisador da nossa história natural. Balduíno Rambo escreveu a primeira grande obra sobre a fisionomia do Rio Grande do Sul. Livro básico da cultura gaúcha. Foi o pioneiro em defender a criação de parques naturais no Estado. Entre outros o parque do Zoológico de Sapucaia.

O trabalho destes pioneiros serviu de inspiração e alerta da comunidade da região. Nos anos 70 surgem a AGAPAN, com seu núcleo leopoldense, e o Movimento Roessler para Defesa Ambiental. A primeira se converteu na UPAN um pouco mais tarde. Estas duas entidades lideram um forte movimento em defesa do Rio dos Sinos. A projeção, feita pelo DMA da SSMA, de que o Rio dos Sinos estaria morto nos anos 90, se nada fosse feito, foi o estopim da ação.

A primeira campanha foi pela implantação de tratamento em todos os curtumes, em 1985. A indústria queria protelar a obrigação. Houveram várias reuniões da indústria com os ecologistas mediadas pelo Secretário Antenor Ferrari.

A UPAN lança o programa de 7 pontos em favor do Rio dos Sinos. Um deles pede a criação de um órgão em prol do Rio dos Sinos. O Movimento Roessler lança a campanha “Rio que te Quero Limpo” com uma série de atos públicos em prol do Rio dos Sinos.

O mais famoso foi a pintura do “quadro do rio” em um muro no calçadão do centro de Novo Hamburgo. O cronista Alceu Feijó, do jornal NH, criticou o ato dos ecologistas. O que gerou uma reação dos demais cronistas do jornal.  Fato que desencadeou um tremenda polêmica e levou o Grupo Sinos a realizar a campanha “SOS Rio dos Sinos”.

Várias reportagens foram produzidas levantando massivamente os problemas do Rio. A própria indústria curtumeira reagiu implantado seus sistemas de  tratamento e fazendo uma campanha de mídia para melhorar sua imagem pública.

Todo este movimento atraiu a atenção de técnicos do Estado que estudavam sistemas de gerenciamento de água no mundo. Perceberam a possibilidade de  implantar, no Vale dos Sinos, uma experiência prática de gestão das águas. A este movimento técnico se somou o interesse dos pesquisadores da Unisinos que atuavam no Rio dos Sinos.

Estas três forças se juntaram, catalizadas pelo apoio da mídia, para realizar, em setembro de 1987, um seminário em prol do Rio dos Sinos na antiga sede da Universidade no centro de São Leopoldo.

Evento que marca o lançamento do Comitê de Preservação, Gerenciamento e Pesquisa do Rio dos Sinos. Entidade que foi sacramentada por Decreto do Governador Simon em 17/03/1988.

A partir daí, até a criação da Lei das águas gaúcha em 1994, o Comitesinos foi uma grande experiência de envolvimento da comunidade e órgãos públicos na gestão das águas do Rio dos Sinos. Na falta de referências foi se montando um trabalho de tentativas. Com erros e acertos. A primeira forma de organização foi a de
grupos de trabalho. Destaque para o GT de educação ambiental que fez um grande trabalho junto as escolas da rede pública da região. O desenvolvimento
institucional também foi grande com várias idas às Câmaras de Vereadores, apoio financeiro de Prefeituras e logístico de Universidades.

O primeiro conflito equacionado foi o da Samrig com a Corsan. A primeira, em 1989, a maior poluidora individual do rio. A segunda responsável pelo abastecimento de milhares de pessoas no trecho abaixo da empresa. Com a implantação de tratamento de efluentes se teve o primeiro ensaio do potencial de intermediação
e legitimidade do Comitesinos.

Trajetória que, com a lei gaúcha das águas, prossegue rumo ao destaque e liderança local, regional e nacional.

Um reflexo e uma prova da importância de mobilização da comunidade, ao longo de gerações, na defesa do seu patrimônio comum: as águas do rio que identifica e da nome à nossa comunidade.

Por Arno Kayser – representante do Movimento Roessler para Defesa Ambiental

Texto preparado em função de evento de capacitação de novos membros do Comitesinos

Novembro 2005

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Trackbacks

  • By Rio dos sinos em debate « APEDeMA-RS on 18/04/2012 at 23:59

    […] Clique aqui e leia o artigo completo no blog de Arno Kayser “Pra pensar a ecologia em dias tão confusos”. Share this:CompartilharTwitterFacebookEmailPrintGostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso post. […]

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