TERRA: ECO SAGRADO

 

A Ecologia é uma ciência que evoluiu e se transformou num grande movimento social. Partindo de uma simples proposta de estudo da lógica das relações dos seres vivos com as bases físicas e químicas de seu meio, a Ecologia lançou as bases de uma nova compreensão da dinâmica da vida no Planeta.

Hoje, os ecólogos e ecologistas, enxergam a Terra como um grande ser vivo capaz de se automanter através de uma tremenda teia de inter-relações entre todos os seres que vivem neste pequeno astro sideral.

As milhões de espécies de seres vivos do planeta se comportam como células e tecidos de dezenas de órgãos que mantém o fenômeno vital no planeta.

Está forma de ver o mundo se constitui num paradigma novo para a humanidade que enxerga unicidade e inter-relação entre tudo e todos.

Paradigma este que se opõe ao paradigma cartesiano, base de nossa ciência e cultura, que propõe um mundo mecanicista em que cada parte esta separada e vive independente dos demais. Paradigma formatado pelo pensador Decartes, no início da Era Moderna, mas que encontra raízes no pensamento Aristotélico da filosofia grega clássica e que fundamenta boa parte da visão teológica das religiões monoteístas contemporâneas.

A visão mecanicista do mundo é a que tem fundamentado uma série de transformações na dinâmica da vida do planeta todo tanto nas relações da humanidade com as demais criaturas como, também nas relações dos humanos entre si através de várias tecnologias e construções sociais.

Quem crê que os outros seres são unidades independentes e sem vinculação com sua própria identidade não dispõe de ferramental para entender como condenáveis a destruição inútil de paisagens e criaturas pela ação da tecnologia humana no planeta.

Esta idéia é muito poderosa porque combina muito bem com a auto-imagem egoísta da maioria de nós que sempre coloca a cada um de nós na ilusória posição de reis do mundo.

Dentro deste paradigma cartesiano uma ação é boa quando redunda em benefício unilateral para si mesmo. Num reducionismo daí decorrente a sociedade moderna só julga positivas ações que resultem em lucro financeiro independente do que isto signifique para a existência de povos e espécies pelo mundo afora.

Verdadeira ilusão que oculta o fato de que a nossa vida é parte de uma teia de inter-relações. Se um fio se rompe a teia fica mais fraca. Se persistir o processo pode chegar o momento em que a ruptura de um único fio gere o colapso final de toda a estrutura da teia.

Este é o dilema civilizatório que se acerba nas últimas décadas em que o poder tecnológico da humanidade se converteu numa força geológica com potência superior à força de todos os demais fenômenos naturais. Quer sejam eles brandos ou violentos. A mão humana já é mais forte que todos os vendavais, terremoto, maremotos, tempestades e vulcões que operam no planeta.

Somos capazes de destruir numa potência que aumenta na mesma proporção em que aumentamos nossa presença numérica na Terra. Estamos cada vez mais ocupando o espaço das demais criaturas. E agimos movidos por uma compreensão de mundo que nos coloca como algo à parte e não como umbilicalmente ligados a todas as demais criaturas e fenômenos que determinam a manifestação vital em nosso planeta.

A dicotomia cartesiana Humanidade/Natureza é uma idéia tão poderosa que se manifesta mesmo entre àqueles que não usam do conceito econômico de lucro para avaliar se uma ação é positiva ou não. Mesmo discursos que defendem uma distribuição mais justa da riqueza material produzida pela atividade humana se rendem e justificam a destruição da natureza se ela for boa para ajudar pessoas pobres.

A supremacia do humano sobre o natural é um equívoco tão grande quanto todas as teorias sociais e lógicas que justificam a superioridade de alguns grupos e organizações humanas sobre outros. Teorias estas que justificaram ditaduras, escravidões, genocídios e guerras ao longo da História.

É por isto que a compreensão ecológica e sistêmica pede, também, uma nova visão do transcendental e do sagrado.

Em sendo verdadeira a imagem de que a vida é uma grande sintonia duramente composta por milhões de anos de ensaios e evolução, e que esta sinfonia é cotidianamente executada com perfeição pela maioria das criaturas então é chegado o tempo em este instrumento dissonante e desafinado que tem sido boa parte da humanidade se reafine com o tom do diapasão primordial.

A humanidade, mesmo sem ser mais importante ou superior as demais criaturas tem papel primordial na execução da sinfonia da vida. Mas pare reencontrar seu tom ela precisa de uma nova cosmovisão.

Cosmovisão que, em primeiro lugar, provoque um trabalho de autoconhecimento que leve ao reconhecimento profundo de sua condição de parte integrante de um todo harmonioso em oposição à idéia de uma condição superioridade derivada de um capricho ou predileção divina.

Autoconhecimento que provoque mudanças de valores. Cooperação ao invés de competição. Solidariedade ao invés de imposição autoritária. Afeto ao invés de força. Respeito ao invés de medo. Silencio ao invés de tanta fala. Contemplação ao invés de tanta análise.

Processo que redunde em práticas que percebam como na diversidade não um problema a ser resolvido, mas uma manifestação poderosa de vitalidade que deve ser estimulada como a própria essência do fenômeno criador da vida.

Ao contrário do que aparenta uma análise superficial o movimento ecológico não é apenas um fenômeno simpático de chatos mais preocupados com os bichos e as plantas do que os famintos e violentados deste mundo.

Na real é um grande clamor de muitas vozes que tem se multiplicado pelos quatro cantos do mundo para que acordemos para o fato de que estamos destruindo nossa casa no universo porque não nos vemos com inseridos dentro dela.

Casa que é um presente divino que nos a colhe e ampara cada segundo de nossa vida e com o qual interagimos a cada instante.

Um clamor por construirmos uma compreensão do sagrado que há nesta condição.

Para os gregos Oikos significava casa. Em bom português “Eco” também significa casa. Todos sabem que a Ecologia é a ciência da “lógica da casa”.

Mas mais do que ciência hoje a Ecologia se converteu numa filosofia de vida que procura uma religação com o sentido profundo da vida.

Religação que reconecte o ser humano consigo mesmo e com todos os demais seres vivos.

Religação que seja uma reconciliação com o fato de que a Terra é um lugar sagrado por ser um templo de manifestação da vida.

Neste sentido a Ecologia se apresenta aos teólogos como uma fonte de inspiração para oxigenar teorias sobre nossa condição no Universo.

Apelam para que enxerguemos o divino e maravilhoso do fenômeno da vida. Esta condição que as forças vitais nos presenteiam a cada instante.

Apelam para repensar o papel que Deus reservou para nós no processo da Criação.

Neste sentido a imagem “Terra: eco sagrado” é clara ao apontar o planeta como uma casa sagrada.

Mas também pode ser interpretada como a constatação de um clamor que circula em todo o mundo. Um eco que é o reflexo de muitas vozes do passado e do presente para a recuperação e perpetuação de uma casa sagrada para todos. Independente de que seja.

È o ruído de um grande movimento que ecoa no planeta todo chamando os que ainda estão cegos e surdos para agirmos por uma organização que permita uma vida de abundância e prazeres para todos. A Terra Prometida Por Deus à Moisés quando ele iniciou o processo de libertação do seu povo oprimido.

Arno Kayser – Agrônomo Ecologista e Escritor

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