COURO IV

 

Deu uma caprichadinha no sapatinho velho de guerra. A meia sola que fizera no sapateiro dava para encarar mais um tempo de batalha. Tomou aquele banho de sábado e botou a roupa boa de sair. Um par daqueles que estava fazendo para exportação seria bem mais “tchan”. Mas a grana estava curta e não dava nem para um daqueles com defeito que sobravam. As andanças noturnas tinham que continuar sendo feitas com o velho sapato de sempre. Pelo menos era de couro e não daqueles de pano. Dinheiro de um décimo terceiro pro bailes de fim de ano.

Encontrou a turma no boteco do seu João. Pegaram o ônibus das oito e se mandaram pro centro. Todo mundo bacanérrimo. Era fim de verão e os ricos estavam todos na praia. Mas o calçadão estava cheio com gente de todos os bairros e vilas da cidade. A mistura de perfumes baratos marcava as cruzadas de um grupo com o outro. Sentaram para uma cerveja bem gelada. O primeiro gole era sempre o melhor de todos. Curtiu aquele sabor frio por toda a garganta. Fazia sentir-se mais fortes. De repente ela cruzou na esquina e sentou-se numa das mesas do barzinho do lado com amigas. Trocaram um olhar. Se ele tivesse adivinhado teria sentado naquele bar. Mas agora ia ser gozado trocar. A turma toda ia desconfiar e pegar no pé. Ele não estava a fim de dar esta chance. Foi bebendo a cerveja devagar e ficou no bico dela discretamente. Conversava animada com as amigas e não parecia nota-lo. A saia curta estava a maior graça. Um par de coxas e pernas morenas bem torneadas. Mas não dava a menor chance de uma troca de olhares. Parecia ignora-lo. “Porra de salário que não dava para comprar um sapato e uma roupa mais legal” pensou. “Com aquela roupa de missa ninguém ia reparar nele mesmo!”. Perdeu-se naquela contemplação. Mal e mal respondia o papo do pessoal. Mas a discussão acirrada da pelada de futebol da tarde estava quente e ninguém reparava muito nele. O time perdera e dois estavam discutindo de quem era a culpa. Pode ficar tranqüilo e meio aéreo no seu canto. Volta e meia dava uma olhada pra ela que continuava sem parecer nota-lo.

“Será que tinha namorado?”perguntou-se. A curva do seio na blusa justa era bonita. Só de pensar na sua mão tocando nela deixava-o excitando. Quis ajeitar a coisa entre as pernas, mas ficou com vergonha. O povo todo olhando não pegava bem. E nada da menina olhar pro seu lado.

Há dias estava de olho! Desde que a cruzara num sábado na feira de artesanato. Depois descobrirá a firma em que ela trabalhava. Bem perto da dele. Dava de alcançar se desce uma corrida na hora da largada. Já a sacara duas vezes na última semana. Mas ainda não tivera coragem de chegar no pedaço. O cheiro de cola e o suor nas mãos deixavam-no mais constrangido que a própria timidez. Planejava chegar num momento mais próprio em que tivesse mais legal na foto. Já passava das dez e elas se levantaram pra pegar o último ônibus pro bairro. Quando parecia que mais nada ia rolar ela deu-lhe uma secada de olho nele que o deixou todo arrepiado. Pensou até em levantar e ir atrás. Pegar o mesmo ônibus. Sentar perto e descer no mesmo ponto. Bater um papo, descobrir onde morava. Mas vacilou. Não queria abrir o jogo. A turma estava falando em ir pro bailão e chegar já pronto. “Os Atuais” iam tocar e era noite de “Damas não pagam”. Ia dar um monte de coroas para agarrar. Acabou indo no embalo. Mas ficou só bebendo até a metade da madrugada. Resolveu largar a pé para casa e saiu sozinho trocando pernas na noite. A cabeça cheia de álcool latejava um pouco. Ele ia olhando pro chão e curtindo cada passo do sapato no asfalto. O ar frio daquela hora curou um pouco o porre. Ele chegou cansado em casa e caiu direto na cama. Só tirou os sapatos. Estava moído e a cama lhe pareceu o melhor lugar do mundo. Pensou nela antes de apagar. “Quem sabe tentar uma chegada depois do boião na fábrica”. Teria uns quinze minutos para sentarem no meio fio da calçada debaixo de alguma sombra antes da pegada da tarde.

Março 1991

Arno Kayser – Agrônomo Ecologista e Escritor

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