A CRIAÇÃO E O DESTINO HUMANO

A perspectiva cristã do Universo o descreve como criação. A maioria dos cristãos entende o mundo atual como fruto de uma evolução conduzida pela mão do Criador segundo um projeto por Ele estabelecido.

Embora muitos entendam a criação descrita na Bíblia como uma verdade literal a maioria também aceita a perspectiva da ciência que descreve o Universo conhecido como produto de uma longa história evolutiva.

História que começou como resposta às leis e postulados descritos na base do pensamento científico contemporâneo.

Para a ciência a visão bíblica se constitui numa grande metáfora revelada por mentes inspiradas capazes de compreender de forma intuitiva as verdades balizadoras do processo evolutivo. Gente que soube revelar este saber numa forma rica em simbolismos capaz de cativar mesmo as mentes mais simples para a maravilha da história evolutiva do planeta e da espécie humana.

Na perspectiva cristã Deus conferiu um papel muito importante à espécie humana. Uma criatura com talentos e habilidades capaz de assumir administração da Criação. Uma espécie com livre arbítrio capaz de interpretar a vontade divina e conduzir sua obra obedecendo aos preceitos de condução estipulados pelo Criador.

A perspectiva cientifica contemporânea entende que a vida assumiu o comando do processo evolutivo na Terra a partir do seu próprio surgimento como criaturas unicelulares no oceano primordial.

Até ali a História Natural seria decorrência de respostas às leis da Física e da Química. Com o aparecimento da vida o processo evolutivo começou a ser moldado pelos interesses das criaturas vivas produzindo um ambiente propício a sua ocorrência. Processo que segue em curso até hoje.

Esta teoria cientifica, denominada “Hipótese Gaia”, também prevê para o ser humano um papel importante. Ela considera o planeta todo um grande ser vivo trabalhando para sua própria perpetuação. Nesta visão a humanidade é vista como que o tecido nervoso desta criatura. Sua sensibilidade e inteligência. O fruto do desejo de autoconhecimento consciente que a vida tem. Ela teria o potencial capaz de entender à vida e ser o sistema capaz de perceber e fazer desabrochar a plenitude de seu potencial latente.

Como na visão bíblica a humanidade esta no centro do projeto evolutivo. A perspectiva cientifica vê na humanidade potencial para entender que a evolução é um projeto aberto em construção permanente.

A mesma compreensão expressa no versículo de Romanos 22, que nos fala que a vida esta em constante processo de parto. Ela esta em perene renovação e potencial latente para uma expressão plena.

A Ecologia descreve esta estado de vida plena como Clímax. Estado de um ecossistema em que toda matéria e energia esta sendo utilizada na correlação mais perfeita num processo vital pleno e em dinâmico equilíbrio.

Mas como na versão bíblica também a perspectiva cientifica nos relata que a Humanidade não vem cumprindo a contento sua missão.

Na Bíblia Cristo veio nos redimir dos erros que o texto chama de pecados. Na visão cientifica falta um personagem como Cristo.

Curioso é que o pecado surge com o consumo da árvore do conhecimento do bem e do mal justificando a expulsão do paraíso. Uma estória que remete aos cultos praticados antes da supremacia do conceito monoteísta que norteia o cristianismo. Culturas que tinham outra compreensão da relação do humano e do natural e que, hoje, são apontadas como modelo de uma nova dinâmica social de respeito à sinfonia da natureza.

A visão do paraíso perdido também influiu no surgimento da defesa da natureza. O pensamento cientifico e a filosofia iluminista, a partir do século XVIII apontaram esta necessidade lançando as bases do Conservacionismo. Seu pressuposto principal é que para proteger a vida selvagem é preciso afastar a Humanidade de perto. Uma idéia parecida com a visão de que para salvar a alma é preciso dominar a carne.

Surgem os parques naturais para proteger a vida selvagem. Santuários semelhantes aos espaços de formação religiosa e vida contemplativa.

O Conservacionismo surge como rejeição aos impactos negativos da Revolução Industrial que deu à Humanidade um ferramental capaz de mudar o planeta.

Mas a Revolução Industrial não seria tão impactante se a Humanidade, séculos antes não tivesse desenvolvido uma visão equivocada de sua posição no planeta. Ainda na Revolução Agrícola a Humanidade criou uma visão de si como um corpo independente dos limites e leis naturais que regem as demais criaturas na Terra.

Esta visão levou em particular a sociedade ocidental, a considerar-se superior as demais criaturas e eticamente autorizada a sujeitá-las aos seus desejos.

Enquanto ela tinha pouco poder tecnológico e somente escala local esta visão não gerou muitos estragos no planeta em geral. Mas a história registra vários declínios de civilizações por conta, entre outros motivos, da destruição do ambiente.

Com a Revolução Industrial e sua expansão através do colonialismo europeu em muitos recantos surgem eventos indicando algo de errado acontecendo.

Num primeiro momento o desaparecimento de muitas espécies selvagens e o surgimento de focos de poluição industrial.

O que fez surgir, por um lado, os refúgios das espécies ameaçadas e por outro lado a valorização da vida no campo com a fuga das cidades industrializadas. A valorização da vida no campo também foi muito defendida pela Nobreza em sua disputa ideológica com a Burguesia pela hegemonia política.

Esta visão foi se intensificando até os primeiros anos do século vinte quando novos fatos vieram impulsionar a devastação da natureza denunciada pelos conservacionistas. As duas guerras mundiais e a massificação de tecnologias como os venenos químicos, a petroquímica e a energia nuclear despertaram para o aumento dos riscos ao equilíbrio do planeta.

Nos anos sessenta se somaram as divulgações sobre os limites de várias matérias primas e fontes de energia não renováveis e a denuncia de graves acidentes e focos de poluição.

Fatos que fizeram explodir o Movimento Ecologista em vários países atacando o modelo de desenvolvimento implantado em especial na Europa, EUA e Japão e em expansão em vários pontos do Globo.

A percepção da Terra como um ponto perdido no espaço, após a divulgação das primeiras fotos dela feitas do espaço despertou a noção da fragilidade do fenômeno vital.

Em 1972 a ONU organiza o primeiro evento de cúpula sobre o meio ambiente em Estocolmo. A ECO 72 foi um marco, pois reconhecia o tema ambiental de forma oficial e lançou várias idéias e promoveu o debate para lidar com ele.

Mas até ali a percepção era de uma porção de fatos restritos a alguns pontos. Erros que poderiam ser corrigidos com ações governamentais específicas. Tanto que muitos governos, o Brasil entre eles, defendia que havia muito espaço para o progresso e um pouco de poluição era até bem vinda para acabar com a miséria do povo. Viam no discurso ambiental uma estratégia dos países ricos de negar aos países pobres seu nível de bem estar.

Este debate perdurou por mais vinte anos opondo ecologistas e conservacionistas aos desenvolvimentistas. Enquanto o embate teórico ocorria nas praças e academias o processo desenvolvimentista ocupava cada vez mais espaço.

Uma série de fenômenos começaram a deixar claro que a vida no planeta era toda interligada e que os fatos isolados se interconectavam numa rede de efeitos globais difíceis de mapear ou perceber sem estudos de escala global.

Não era mais possível enfrentar os problemas só com ações localizadas. O Ambientalismo começa a dizer que é preciso parir um novo processo civilizatório que tenha visão global.

Vários fatos evidência esta necessidade. A continuidade da destruição da vida selvagem pela devastação de seus habitat substituídos por uma agricultura baseadas em grandes máquinas e agrotóxicos e uma expansão urbana acelerada. A corrida nuclear assustando com seu poder de destruição total durante a Guerra Fria. A população crescendo e se mudando para cidades cheias de automóveis. O cinza tomando o lugar do verde em metrópoles cada vez mais enfumaçadas. A descoberta de resquícios de agrotóxicos no corpo de ursos polares a milhares de quilômetros das lavouras revelando que circulam por toda a cadeia alimentar. A morte dos peixes marinhos e a caça às baleias. O buraco da camada de ozônio decorrente de gases de sprays e geladeiras. Os acidentes em usinas nucleares espalhando radiação por grandes áreas e ultrapassando fronteiras. Os desastres industriais como Minamata, Bhopal e no Rio Reno contaminando o ar e águas e atingido muitas pessoas. O derretimento das neves eternas. As mudanças climáticas derivadas dos gases de efeito estufa oriundos da queima de combustível fóssil, criações de animais confinados e lixões, gerando secas, tempestades, desastres e perdas agrícolas. A poluição da água por falta de saneamento. A proliferação de lixo decorrente de consumo de bens descartáveis.

Fatos desafiando o espírito humano a rever sua relação com o mundo e seu papel na condução da civilização. Processos que culminaram com o reconhecimento, nas conferências do Rio em 1992 e Johanesburgo em 2002, de que eles ameaçam a vida em escala global.

Também demonstraram serem insuficientes ações individuais locais ou nacionais se não estiverem em sintonia com ações de escala global.

Exemplos disto são o Protocolo de Kyoto, para o Clima, ou a Convenção da Biodiversidade. Tratados em que governos se comprometem a agir juntos.  Inspirados na Convenção de Proteção às Baleias (fruto de um ativismo para além dos territórios nacionais) e no controle dos gases geradores do buraco na camada de ozônio. Ações que comprovaram ser possível reverter ações danosas ao meio ambiente com cooperação global. Fatos que deram novo rumo à proteção à natureza sem destruir a economia superando as críticas dos desenvolvimentistas ao ambientalismo.

Mas a principal lição é que estes fenômenos não são enfrentáveis sem uma ação coletiva organizada. Praticamente todas as ações em defesa do meio ambiente partiram de grupos de cidadãos organizados pressionando governos e empresas ou educando e mobilizando a cidadania.

Outro fato é que precisamos construir uma nova Cosmovisão espiritual como alicerce desta transformação.  Vários pensadores têm trabalhado nesta frente inflando no Espírito Humano uma Ética de reverência à vida em todas as suas manifestações.

Esta estratégia mobilizadora tanto no plano da ação material como em pontos mais sutis da subjetividade humana tem de ser suficientemente eficiente para atrair a atenção das pessoas e mobilizar sua energia.

Em particular o maior desafio é mobilizar a indignação juvenil hoje dispersa num mundo de consumo de produtos descartáveis e relacionamentos virtuais.

É sabido que os jovens priorizam o meio ambiente, mas muitos movimentos não tem entendido as novas formas de rebeldia sadias dos nosso tempos deixando um vácuo para uma rebeldia vazia e autodestrutiva.

É muito forte o sentimento de que tudo já está perdido e a única saída é participar da grande festa de despedida da vida no planeta.

Temos que esclarecer que se despede um modo de civilização e uma compreensão do mundo. Paralelo a ele vêm se gestando um projeto novo de sociedade. Projeto que hoje ainda atua em forma de ações de guerrilha com o emprego em especial das ferramentas de comunicação da internet.

Mas é preciso inspirar estas ações com a certeza de que a vida ainda tem muito para dar de si sendo capaz de restabelecer-se em esplendor e beleza e provendo a todas as criaturas suas necessidades vitais essenciais. Por isto cada vez mais temos que discutir o que é essencial para se viver se queremos achar o caminho.

O que nos remete ao versículo inicial. É preciso, como nos tempos difíceis em que Paulo pregava aos cristãos em Roma, perceber que a vida geme em dores de parto porque deseja prosseguir se reinventando. Que cabe a cada um buscar o caminho do Espírito fortalecido na fé e da Razão iluminada pelo conhecimento a fim de se somar neste desafio de reentronizar a Humanidade no papel previsto tanto pela religião como pela ciência. O de ser o jardineiro do paraíso planetário.

Arno Kayser *Agrônomo, Ecologista e Escritor – Autor de “A Reconciliação com a Floresta” Porto Alegre, Mundo Jovem, 2010 2 Ed.

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