COURO I

Criado guacho, cresceu agarrado à teta de borracha. O que lhe rendeu carinhos e afagos raros ao gado criado a campo. Desmamado correu invernadas, conheceu sangas e capões. Tomou chuva e sol no lombo. Varou inverno e verões. Sal e capim fizeram dele bicho gordo e lustroso. Só não conheceu o amor porque cedo lhe comeram as bolas. Mas nunca as cercas foram tão altas ou próximas que se sentisse tolhido em seu desejo de ir e vir.

Por isto estava inquieto. A caixa alta do caminhão lhe roubava a visão de onde ia. Apertado entre um brazino e um mocho suava e babava de calor e medo. O barulho do motor e da estrada acelerava o coração. Nunca deixara a querência por tanto tempo. A incerteza o assustava. Viajaram um dia e uma noite. O aperto e a impossibilidade de deitar comeram lhe as energias. Sentia-se cansado e fraco. Quase caiu da caixa no desembarque. Foram deixados num piquete sem pasto e pouca água. Dois dias limpando a buchada. Tempo passado ao som dos berros desesperados dos que chegaram antes. Pior ainda o silêncio mortal que sucedia o berreiro. Quando chegou sua vez estava esgotado. Mas o cheiro de sangue no final do brete descarregou a derradeira dose de adrenalina. Apavorado encontrou forças sabe lá aonde para tentar fugir daquele cadafalso.Pulou e deu coices tremendos. Mas não havia fuga possível.

A pancada mal dada na testa não roubou de todo os sentidos. A lâmina fria sangrou-lhe a jugular. O sangue jorrou nos macacões dos açougueiros que, habilmente, o ergueram de ponta cabeça para que se esvaísse todo. Foi aberto e limpo da buchada. As vísceras comestíveis para um lado. Os restos apartados. Afiadas facas arrancaram a pele. Em pouco tempo o que era vida pulsante esfriava esquartejado no congelador. O couro, já salgado, foi levado, em imensa pilha, para os fulões de um curtume próximo. Mais dois ou três dias estaria curtido e pronto para a poderosa indústria do sapato. Tecido vivo que o cromo transformaria em coisa morta e inerte. Capaz de ficar anos no tempo sem apodrecer. Matéria prima para envolver finos pés nos salões. Ou quem sabe, com sorte, virar botina e retomar a percorrer os campos nos pés de algum vaqueiro.

Naquela tarde a mesma faca que o sangrará varou o coração de um desgraçado. Briga tola de bar que a cachaça e a falta de grana transformaram em coisa muito séria. Uma tal de Maria o motivo da discórdia. Vestida de chambre e chinelinho de dedo assistia à novela na hora da tragédia.

O jornal deu destaque a dose diária de violência que animava as companhias de segurança. Da morte do boi guacho nenhuma linha. Na manchete os números da exportação no ano anterior.

2/12/90

Arno Kayser Agônomo, Ecologista e Escritor

Este é um dos capítulo do livro “couroo” lançado pela editora Oikos

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